Juro real pode afetar crescimento, previne economista

Muito mais do que influenciar o tamanho da dívida pública, a alta da Selic para 18,25%, promovida ontem pelo Copom, traz à tona o fantasma do juro real. Pelos cálculos de Marcelo Serfaty, diretor da Fidúcia Asset Management, o juro real, que já estava em um patamar de 11,5%, chega a aproximadamente 12% com o reajuste da taxa básica de juros de ontem. "De início, o problema fica em saber qual o tamanho do juro real que a gente pode suportar mantendo um padrão de crescimento este ano, basicamente, via demanda agregada interna e não mais com o setor exportador como carro-chefe", disse Serfaty, em entrevista ao Conta Corrente, da "Globo News".Na opinião de Serfaty, seria conveniente ao governo "aliviar" a tarefa do Banco Central aumentando o PIB potencial brasileiro via investimentos e, conseqüentemente, "diminuindo a taxa de juro real". O aumento da Selic, segundo ele, não foi nenhuma novidade para o mercado, porque "o BC já havia sinalizado que colocaria os juros em níveis compatíveis com as metas de inflação". Para os meses seguintes, o economista também espera mais altas, diante da "meta muito rigorosa estabelecida para este ano (5,1%)".O governo, no entanto, pode fazer a sua parte para tirar o BC da ciranda do aumento dos juros. De acordo com Serfaty, o Executivo federal poderia ter usado o recorde de recursos arrecadados em tributos no ano passado - R$ 322,55 bilhões pagos por brasileiros em impostos e contribuições em 2004 - para realizar investimentos, especialmente na área de infra-estrutura. Ao contrário disso, diz ele, a gestão Lula elevou seus gastos com custeio do governo, além de salários e viagens. "Mais investimento gera mais produto potencial. Mais produto potencial gera menos gap entre oferta e demanda, quando a gente cresce no curtíssimo prazo. E alivia a vida do BC."Quanto à dívida pública, Serfaty acredita que a baixa da cotação do dólar está dando uma "forcinha" para o controle do montante. "A parcela em dólar da dívida está diminuindo cada vez mais e isso é ótimo", apontou. O importante, segundo ele, é que a relação dívida-PIB "até declinou" a uma posição confortável.Serfaty também acredita que a economia brasileira tem espaço para evitar pressões inflacionárias futuras, pelo fato de o País ter obtido um superávit comercial muito forte no ano passado, na casa dos US$ 33 bilhões, e, para este ano, as perspectivas nesse sentido também são boas. "Temos hoje espaço de compensação para algum desvio porque a gente pode importar." O obstáculo, segundo ele, pode ser a elevação muito acima do razoável do consumo, que poderia ocasionar um overshooting.

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