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Fábio Alves
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Juros abaixo de 2,0%

A necessidade de estímulo monetário é maior agora do que na última reunião do Copom

Fábio Alves*, O Estado de S. Paulo

10 de junho de 2020 | 04h00

Cresceu a probabilidade de o Copom não somente reduzir a taxa Selic em 0,75 ponto porcentual, para 2,25%, na sua reunião da próxima semana, como também deixar a porta aberta no comunicado para um derradeiro corte no encontro de política monetária de agosto, levando os juros básicos para abaixo de 2,0%, um patamar nunca antes imaginado no Brasil.

Esse desfecho seria completamente diferente do que sinalizou o Copom na sua mais recente reunião, em 6 de maio, quando, após cortar a Selic em 0,75 ponto, informou que considerava ainda apenas um último ajuste nos juros para o encontro dos dias 16 e 17 deste mês – e não em magnitude maior do que 0,75 ponto.

Acontece que, desde maio, o cenário mundial melhorou significativamente, enquanto, em contraste, a perspectiva para a economia brasileira se deteriorou, uma vez que a curva de contaminação do novo coronavírus ainda está na ascendente no País e o relaxamento das medidas de isolamento social em Estados e municípios corre risco de revés caso o número de casos e de mortes volte a crescer.

No exterior, por outro lado, além de ficarem mais animados com a reabertura das economias na Europa e nos Estados americanos, fortalecendo a aposta de uma retomada mais rápida do PIB global, os investidores partiram para a busca de ativos com maior retorno, uma vez que o Federal Reserve (Fed) e outros grandes bancos centrais inundaram os mercados com grande liquidez para conter os impactos causados pela pandemia.

Com isso, houve um afrouxamento importante das condições financeiras no mundo, em particular nos países emergentes. A taxa dos contratos de cinco anos de Credit Default Swap (CDS) do Brasil, um termômetro do risco país, caiu quase pela metade: de próxima a 400 pontos no auge da crise do coronavírus, em meados de março, essa taxa chegou a ceder para até 201 pontos. Já o dólar, depois de bater a máxima histórica de R$ 5,97 ao longo do dia 14 de maio passado, fechou na segunda-feira a R$ 4,8544, menor valor desde o dia 13 de março.

Na ata da reunião de maio, o Copom levantou como um dos principais temas o limite efetivo mínimo para a taxa Selic, abaixo do qual o corte de juros geraria mais instabilidade e até aperto das condições financeiras. Para o Copom, esse limite é mais alto nos países emergentes, em razão de um prêmio de risco mais elevado por causa de, entre outros fatores, uma maior fragilidade fiscal.

Mas esse limite é fluido e muda conforme as condições externas e internas. Diante do cenário na reunião de maio, o Copom talvez tenha calculado esse limite como 2,25%. Ou seja, para entregar a inflação na meta em 2021, o horizonte relevante para a política monetária atualmente, era necessário apenas mais um corte de 0,75 ponto em junho. Mas aumentou a chance de uma redução também no Copom de agosto, de 0,50 ponto, o que levaria a Selic a mínima histórica de 1,75%.

Isso porque, desde o último Copom, a ansiedade do mercado diminuiu com um descontrole fiscal, especialmente depois que o presidente Jair Bolsonaro vetou o trecho do projeto de socorro financeiro a Estados e municípios sobre reajustes salariais a servidores públicos, congelando os salários até o fim de 2021.

Com o recuo do dólar, também é menor a preocupação com uma pressão sobre a inflação. Na pesquisa Focus, a projeção de inflação para 2021 caiu de 3,30%, no início de maio, para 3,10% atualmente, bem abaixo da meta de 3,75%. Sem falar que a estimativa do desempenho do PIB em 2020 passou de uma queda de 3,76% para uma contração de 6,48%.

A necessidade de estímulo monetário é maior agora do que na última reunião do Copom. E quando perguntado se já haveria espaço para o Banco Central usar ferramentas não convencionais de política monetária, como a compra e venda de títulos públicos no mercado secundário, o presidente do BC, Roberto Campos Neto, tem dito que isso só acontecerá quando se exaurir seu principal instrumento, que é a taxa de juros.

Segundo ele, está longe de ter esgotado o uso da Selic. Essa não é uma sinalização de quem defenda a ferro e fogo que 2,25% seja o limite mínimo de juros no Brasil. 

*COLUNISTA DO BROADCAST

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