Juros ao consumidor podem chegar a 60% ao ano

Os juros ao consumidor para compras parceladas em 12 vezes podem chegar a 60% ao ano, caso a taxa Selic seja mantida em 21%, segundo estima a Confederação Nacional dos Diretores Lojistas (CNDL). Neste caso, as conseqüências para o comércio serão tão desastrosas quanto para os consumidores, já que o encarecimento no crédito deverá comprometer as vendas de fim de ano.A previsão é de que a manutenção dos juros neste patamar reduza as vendas em dezembro em relação ao mesmo mês do ano passado. Em 2001, segundo dados da entidade, o comércio já havia amargado resultado 1,3% inferior ao do ano de 2000.O presidente do CNDL, Sebastião Mauro Figueiredo Silva, diz que não há um cálculo matemático que justifique a proporção de aumento entre a taxa básica de juros da economia e a efetivamente praticada para o consumidor final. Na verdade, os juros do comércio refletem a percepção de risco do momento e acabam, na prática, representando o triplo da Selic.Quando a taxa estava a 18%, por exemplo, os juros médios do comércio para crediários anuais estavam em cerca de 48% a 50%. Os lojistas argumentam que estão, na verdade, repassando o encarecimento do crédito bancário, já que eles dependem de instituições financeiras para manter as vendas a crédito. "Ainda temos esperança de que o mercado se acalme depois das eleições e a situação comece a ser revertida", diz o presidente do CNDL.Ele admite, porém, que a projeção feita pela entidade de crescimento de 5% na vendas em dezembro, em relação ao ano passado, está fora de cogitação. "Se o mercado se tranqüilizar e conseguirmos um crescimento entre 2% e 3%, já estaremos comemorando. Este aumento de juros foi uma surpresa muito grande para nós e representa um enorme custo no crediário", alega.Na avaliação do economista Nilo Lopes, do Departamento de Comércio do IBGE, os juros no varejo vão subir imediatamente "e em porcentual bem superior aos três pontos aumentados na taxa Selic (18% para 21%) pelo Copom".Ele explicou que as taxas no varejo tendem a subir mais intensamente porque o comércio leva em conta não apenas o custo do dinheiro, mas também o risco, que cresce quando a taxa básica é elevada. "O aumento dos juros terá reflexo ainda maior no comércio varejista, nas taxas cobradas em vendas a prazo e crédito pessoal", disse.Lopes acredita que o aumento dos juros vai também apresentar um reflexo negativo sobre as vendas no varejo, porque dificultará o crédito para o consumidor, inclusive no cartão de crédito e cheque especial.Capital de giroO economista Luis Otávio de Souza, da Fecomércio, lembra que mais de 90% do comércio é formado por micro e pequenas empresas, que dependem muito de capital de giro, custo que vem subindo desde junho. Em agosto de 2001, com uma taxa Selic entre 19% e 19,5%, a taxa para capital de giro estava, em média em 3,32%.Este ano, quando a taxa básica alcançou 18%, o capital de giro tá tinha custo médio de 3,82%. A tendência é que se eleve ainda mais. Mas, mesmo com o impacto negativo imediato para o comércio, Souza acredita que a pode haver inversão no curto prazo."Podemos fazer comparação disso com um tratamento de quimioterapia: o paciente não pode ficar muito tempo exposto a isso porque pode acabar morrendo. Mas, sem isso, não há como combater o câncer em que se transformou a volatilidade cambial." Se as medidas forem eficazes para conter a alta do câmbio, em pouco tempo poderemos entrar num círculo virtuoso que garanta a volta à normalidade.O faturamento do comércio está dividido em 40% de vendas feitas à vista e 60% a prazo. Os juros anuais de 18% da taxa básica já representavam, para o consumidor final, nas vendas parceladas, mais de 40% sobre o valor à vista. "Isso assusta tremendamente o consumidor e eleva em muito a inadimplência", diz Figueiredo Silva.Atualmente, a taxa de inadimplência no comércio está entre 25% e 28%, um nível bastante alto. A expectativa é de que no ano que vem fique mais elevada ainda. "Está todo mundo tenso, inseguro com essa instabilidade. Mas, acho que isso é coisa de momento", diz o presidente do CNDL. A tendência de recuperação das vendas, observada nos meses de julho e agosto, pode se reverter neste último trimestre do ano. O comércio Esperava um crescimento de 5% nas vendas em dezembro e entre 3% e 4% no resultado anual, em relação a 2001."Temos que enxergar esta medida dentro de um contexto de absoluta excepcionalidade. Não há porquê imaginarmos que as incertezas do momento persistirão após as eleições. Acreditamos que, seja qual for o próximo presidente, a condução da política econômica se dará de forma responsável, de maneira a reconduzir o país ao rumo do crescimento econômico, sem traumas e preservando as conquistas dos últimos anos", diz Figueiredo Silva.

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