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Juros parados, por enquanto...

É unânime a aposta de analistas de que o BC manterá a taxa de juros em 6,5% nesta quarta-feira

Fábio Alves, O Estado de S.Paulo

19 Setembro 2018 | 04h00

Para a decisão da reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) a ser divulgada hoje, a derradeira antes do primeiro turno da eleição, é unânime a aposta de analistas e investidores de que o Banco Central manterá a taxa de juros inalterada em 6,50% diante de uma ainda anêmica economia brasileira e de expectativas inflacionárias bem comportadas.

Mas o suspense desta reunião ficará para o comunicado que acompanha a decisão: irá o BC manter o tom vago e aberto do último comunicado sobre os próximos passos do Copom ou poderá endurecer o recado e sinalizar que o balanço de riscos para a inflação piorou e que, portanto, está pronto para elevar os juros?

E se decidir mexer no texto do comunicado, quão mais dura poderá ser a sinalização do BC sobre a eventual necessidade de subir os juros?

Apesar de a cotação do dólar ter disparado de R$ 3,7589 no dia da decisão do último Copom (em 1.º de agosto) para acima de R$ 4,20 ao longo da sessão de negócios de segunda-feira, o sentimento dos investidores é de que o BC não vai mexer na taxa Selic antes do desfecho da eleição presidencial. A reunião seguinte do Copom, marcada para os dias 30 e 31 de outubro, acontecerá três dias após o segundo turno.

Se o presidente eleito for alguém considerado pelo mercado como comprometido com reformas, em particular a da Previdência, os analistas contam com um recuo do dólar frente o real, aliviando, portanto, as pressões inflacionárias.

Mas se o vencedor da eleição for um candidato percebido pelo mercado como contrário às reformas e ao ajuste nas contas públicas, então a moeda americana poderá subir mais e forçar uma alta forte dos juros. Não são poucos os que preveem um dólar acima de R$ 5,00 caso a eleição presidencial tenha um desfecho adverso ao mercado.

Mesmo sem ter afetado as projeções de mercado da inflação para 2018 e 2019, a disparada do dólar desde a última reunião do Copom em agosto já está afetando os preços de produtos agrícolas no atacado, como soja, milho e trigo. Muitos analistas consideram que é uma questão de tempo para que uma alta mais forte e sustentada da moeda americana acabe sendo repassada para os preços ao consumidor.

Por enquanto, os analistas de bancos e outras instituições financeiras ainda apostam num desfecho favorável da eleição presidencial, ou seja, que o vencedor seja alguém comprometido em aprovar reformas no seu primeiro ano de mandato. De 67 analistas de instituições financeiras ouvidos pelo Projeções Broadcast, 61 preveem a manutenção da Selic em 6,50% até o fim do ano. Ou seja, o BC não irá elevar os juros nas últimas duas reuniões do Copom de 2018, após a eleição presidencial.

Mas as taxas embutidas nos contratos futuros de juros indicam que os investidores esperam a elevação da Selic para 7,50% até o fim deste ano, embora essas taxas reflitam também um prêmio de risco que vem afetando os países emergentes.

O que esperar então do comunicado do Copom? De um lado, será difícil o BC não reconhecer que o ambiente para os mercados emergentes piorou significativamente. Vários países registraram forte desvalorização das suas moedas, forçando os bancos centrais a elevarem os juros, como a Argentina, Turquia e até a Rússia.

De outro, será importante ver qual o peso que o Copom dará nas suas próximas decisões para a recente fraqueza da atividade econômica brasileira, refletida nas sucessivas reduções das projeções de desempenho do Produto Interno Bruto (PIB) deste ano.

Além disso, o foco dos analistas estará nas projeções de inflação do Copom para 2019 e 2020. No comunicado passado, o Copom projetou inflação de 4,1% para 2019 no cenário com juros constantes a 6,50% e dólar a R$ 3,75.

Neste Copom, a variável do dólar nesse cenário de juros constante certamente será mais alta (provavelmente entre R$ 4,10 e R$ 4,15), o que poderá afetar a projeção de inflação. Se essa nova estimativa para 2019, contida no comunicado a ser divulgado hoje, ultrapassar a meta oficial de inflação de 4,25% no ano que vem, certamente acenderá o sinal amarelo entre analistas e investidores de que uma alta dos juros ainda em 2018 não está totalmente fora do baralho.

*COLUNISTA DO BROADCAST

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