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Juros, Síria e questão fiscal complicam decisão do Fed

O Federal Reserve norte-americano terá de lidar com pelo menos três fontes de incerteza econômica ao reunir-se nesta terça-feira e na quarta: a alta dos juros, a possibilidade de uma intervenção militar dos EUA na Síria e a perspectiva de mais uma batalha no Congresso em torno da questão fiscal. Economistas disseram que todas as três têm o potencial para prejudicar a economia norte-americana nos próximos meses, e o Fed só tem como influenciar diretamente uma delas.

Agencia Estado

15 de setembro de 2013 | 21h05

A avaliação que os dirigentes do Fed fizerem dessas três ameaças vão dar forma à sua decisão sobre quando começar a reduzir seu programa de compras de bônus de US$ 85 bilhões a cada mês, que tem dado sustentação aos mercados e a partes importantes da economia dos EUA. Isso torna a perspectiva do Fed particularmente importante, já que a recuperação da economia, em seu quarto ano, ainda não alcançou o nível projetado pela própria instituição.

"É uma decisão muito difícil para eles tomarem. Eles tinham uma projeção para uma aceleração no crescimento e ela não está se materializando", disse a economista Julia Coronado, do BNP Paribas.

Os juros, que são um fator parcialmente sob controle do Fed, são uma evidência prévia que poderá levar os dirigentes do Fed a exercerem cautela. Nos últimos meses, as sinalizações do Fed sobre uma eventual redução do programa de bônus fizeram os juros subirem. A taxa de retorno dos títulos de 10 anos do Tesouro dos EUA estão agora em torno de 3%, de menos de 2% em maio.

As compras de bônus, adotadas para injetar mais dinheiro no sistema bancário de modo a fomentar o investimento e as contratações, ajudaram o mercado de imóveis residenciais a se recuperar, ao pressionar os juros para níveis históricos de baixa. A perspectiva de uma redução do programa pelo Fed fez os juros das hipotecas subirem novamente, prejudicando, pelo menos momentaneamente, a recuperação do mercado de moradias.

Fora do mercado de imóveis residenciais, as evidências de dano causado por juros mais altos ainda são limitadas. As vendas de veículos estão disparando. Grandes empresas já tiraram vantagem dos juros baixos e muitas estão "sentadas" em enormes pilhas de dinheiro. Mas a alta repentina dos juros poderá prejudicar outros agentes econômicos, entre eles empresas pequenas e médias que poderão repensar seus planos de investimento diante de custos mais altos de financiamento.

"As altas de juros sempre têm um impacto retardado na economia real. Essas decisões não se tomam da noite para o dia. Muito desse impacto provavelmente ainda está no futuro", observou Coronado, que já foi economista do Fed.

Juros mais altos não são necessariamente ruins, especialmente quando eles assinalam um fortalecimento da economia. Muitos dirigentes do Fed veem a recente alta nos juros em parte como resultado de os investidores estarem desfazendo apostas pouco realistas sobre compras perpétuas de bônus pelo Fed. Deter essa expectativa é importante para uma recuperação econômica autossustentável.

Como fazer isso, porém, pode depender de fatores externos.

Uma semana atrás, os dirigentes do Fed estavam diante da perspectiva de chegar à reunião desta semana em meio a ataques aéreos dos EUA contra a Síria. Isso representaria mais uma ameaça externa, somando-se a dificuldades potenciais em países emergentes que podem prejudicar as exportações norte-americanas.

As intervenções militares dos EUA naquela região - as invasões do Iraque em 1991 e em 2003 e os ataques à Líbia em 2011 - demonstraram o potencial para ações militares assustarem os investidores, fazerem subir os preços do petróleo e afetarem negativamente alguns setores da economia. O suspeito habitual era o medo do desconhecido; em cada um dos casos, a economia se recuperou depois de os temores serem afastados.

O acordo deste fim de semana entre os EUA e a Rússia, para buscar uma solução diplomática para o problema das armas químicas na Síria, diminui o potencial de ataques norte-americanos iminentes. Mas a continuidade das tensões no Oriente Médio provavelmente manterá os preços do petróleo elevados, criando mais um freio para a economia.

Reuniões anteriores do Fed podem oferecer um roteiro para que os dirigentes da instituição avaliem os riscos: considerar a ameaça e não fazer nada.

"No meio de toda essa incerteza, o que faz um banqueiro central prudente? Parece-me que um banqueiro central prudente pensa muito, não faz nada, fala o mínimo possível e deixa muito claro que o banco central está muito atento e pronto a tomar medidas, se e quando isso for exigido", disse William McDonough, então presidente do Fed de Nova York, durante a reunião de março de 2013, logo antes de os EUA invadirem o Iraque.

Agora, ainda que o Fed possa relaxar um pouco quando à possibilidade de uma guerra, os riscos políticos domésticos ainda são grandes. Pelo terceiro ano consecutivo, a batalha sobre a questão fiscal no Congresso traz ameaças para a economia.

Na Câmara, a liderança do Partido Republicano, de oposição ao governo Obama, não conseguiu, na semana passada, obter apoio de sua bancada para uma proposta de adiar decisões importantes até dezembro, para evitar um fechamento do governo a partir de outubro. Isso sugere que haverá mais drama nos esforços para elevar o teto legal de endividamento do governo até meados de outubro, de modo a evitar um devastador default da dívida pública.

Os debates sobre a elevação do teto da dívida ocorridos em meados de 2011 terminaram com um acordo orçamentário, provocaram um rebaixamento do rating de crédito dos EUA, serviram de gatilho para uma correção no mercado de ações e causaram dano à confiança entre empresas e consumidores.

Embora continue provável que o Congresso eleve o limite legal de endividamento do governo, "ainda existe potencial para uma turbulência considerável. Eu espero que os congressistas e o governo entendam a mensagem de que eles podem causar danos, mesmo que cheguem a um acordo correto e que não haja default", disse David Stockton, ex-economista-chefe do Fed e atualmente no Instituto Peterson de Economia Internacional.

Durante esse período, os cortes no Orçamento federal decididos em janeiro permanecem em vigor, e novas reduções de despesas estão previstas para 2014. Se a batalha fiscal se estender até o fim do ano, Washington provavelmente terá feito pouco para ajudar a economia antes de um ano de eleições de meio de mandato (presidencial) fazer a temperatura política subir ainda mais.

Isso pode significar que não haverá acordo sobre o Orçamento para o longo prazo, não haverá grandes mudanças nas leis sobre imigração e não haverá grandes investimentos novos em infraestrutura. Essas são reformas estruturais que funcionários do governo dos EUA frequentemente estimulam outros países a fazer para estimular o crescimento econômico.

Sem qualquer ajuda do Congresso, os dirigentes do Fed deverão novamente ser deixados na posição inconfortável de tentar reviver uma economia em dificuldades, enquanto forças fora de seu controle empurram na direção contrária. Fonte: Dow Jones Newswires.

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