Juros subiram para conter inflação de 2003, explica ata do Copom

O aumento da taxa Selic de 18% para 21% ao ano foi decidido pelo Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC), por unanimidade, na última segunda-feira, em conseqüência do aumento da projeção de inflação para 2003. De acordo com a ata da reunião extraordinária, divulgada hoje pelo BC, a convocação da reunião teve como objetivo "não adiar decisões que transparecem como naturais ao Banco Central". No documento, os membros do Copom enfatizam que o BC continua comprometido com as metas de inflação, dentro de um momento que é classificado como "cenário econômico mais adverso". "O aumento da projeção de inflação para acima da meta ajustada para 2003 recomenda uma política monetária mais restritiva, mesmo que a causa primária da inflação não esteja relacionada com um aumento da demanda, mas sim com o efeito sobre os preços domésticos de uma depreciação cambial significativa", justificam os diretores do BC. A meta central de inflação estabelecida pelo governo para 2003 é de 4%, com margem de variação de 2,5 pontos porcentuais para cima ou para baixo. Entretanto, na divulgação do relatório de inflação do terceiro trimestre, o diretor de Política Econômica do BC, Ilan Goldfajn, antecipou que o BC já estava "mirando" uma inflação de 5% para 2003, por causa dos choques vividos pela economia brasileira neste ano. "Uma política monetária mais restritiva diminui o repasse da desvalorização cambial para os preços e melhora as expectativas de inflação", argumentam os diretores, segundo o texto da ata. A redução desse repasse, no entender do Copom, permite que sejam criadas as condições para a retomada do crescimento sustentado, ou seja, não inflacionário, já em 2003.Os diretores do BC afirmam na ata da reunião extraordinária do Copom que, apesar da importância da recente depreciação cambial para a piora das perspectivas de inflação, a política monetária "continua sendo calibrada exclusivamente para que a inflação se situe dentro da trajetória de suas metas, não visando determinar um nível para a taxa de câmbio". Os membros do Copom ressaltam, entretanto, que isso não significa que uma reversão do "excesso de depreciação cambial" não tenha "conseqüências importantes" para a trajetória da inflação e, portanto, para a condução da política monetária. "Evidentemente, uma apreciação cambial, que resulte de uma retomada na confiança na condução futura das política econômicas, reduziria as pressões sobre os preços e melhoraria as expectativas de inflação", diz a ata.A evolução de diversos indicadores econômicos desde a reunião de setembro do Copom acabou diminuindo a probabilidade de concretização do cenário básico utilizado pelo BC para fazer suas projeções de inflação. "O Copom vinha baseando suas projeções em um cenário básico no qual a transição para o futuro governo ocorreria sem turbulências exageradas ou prolongadas", justificam os diretores na ata da reunião extraordinária de segunda-feira. "O aumento do grau de incerteza observado nos últimos meses tem diminuído a probabilidade de concretização desse cenário básico", argumentam os diretores.Os membros do Copom lembram que na reunião de setembro, o Comitê fez suas projeções de inflação utilizando como base um cotação de R$ 3,20 para o dólar e expectativas de inflação do mercado de 5,2% para 2003. "Ambas hipóteses não vêm se materializando", dizem. A evolução dos indicadores econômicos percebida entre o final de setembro e o início desta semana alterou as expectativas de inflação para 2002 e 2003. Na ata, os membros do Copom citam as projeções feitas pelo mercado, e apuradas na pesquisa semanal do BC - o Focus - onde percebe-se que a projeção média do mercado para a variação do IPCA em 2003 saltou de 5,2% para 5,9% desde o dia 16 de setembro. Os diretores também avaliaram o comportamento de outros índices de preços que, segundo eles, revelaram um aumento da inflação. Esse aumento teria sido causado principalmente pela depreciação cambial. "O IPCA de setembro variou 0,72%, acima do valor esperado pelo Copom e daquele observado em agosto, de 0,65%", exemplificam os diretores do BC. "Dados preliminares de outros índices de preços também indicam elevação da inflação em outubro. Segundo o IPC-Fipe, a inflação aumento de 0,73%, na terceira quadrissemana de setembro, para 0,81% na primeira quadrissemana de outubro e, de acordo com o IPC-M, a inflação do primeiro decêndio aumento de 0,42% para 0,49% entre setembro e outubro", apontam os diretores, na ata.Os membros do Copom argumentam que o aumento da inflação nos últimos meses faria com que a taxa de juros real caísse "significativamente", se o BC mantivesse a Selic em 18% ao ano. Essa redução, no entender do Copom, poderia estimular o repasse da depreciação cambial e a propagação dos reajustes dos preços.

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