Justiça apreende documentos do Carrefour a pedido do grupo Casino

A estratégia consiste em preservar provas em meio à disputa entre o Casino e o sócio brasileiro, Abilio Diniz; rede francesa não foi informada sobre negociações entre Abilio e Carrefour para uma possível fusão no Brasil

Melina Costa, O Estado de S.Paulo

25 de junho de 2011 | 00h00

O varejista Casino conseguiu que a Justiça francesa apreendesse documentos que revelam conversas entre seu concorrente Carrefour e o empresário Abilio Diniz sobre uma possível fusão no Brasil. O material está em poder da corte de Nanterre, na França.

Esse é o último episódio de uma disputa entre a rede Casino, que detém 37% do capital do Grupo Pão de Açúcar, e seu sócio local, o empresário Abilio Diniz.

A apreensão de documentos é um procedimento de preservação de provas. O material pode ser requisitado, por exemplo, pela Câmara de Comércio Internacional. No início do junho, o Casino entrou com um pedido de arbitragem perante a câmara para que Abilio passasse a "cumprir todas suas obrigações conforme acordo de acionistas".

Segundo informou a agência Reuters, o Casino protocolou, no início do mês, um pedido para que a justiça buscasse, nos escritórios do Carrefour, documentos que demonstrassem "a existência e o conteúdo de negociações" entre o rival francês e Abilio. De um total de 150 documentos avaliados, 22 demonstram que havia uma discussão em curso entre Abilio Diniz, ou sua assessoria financeira Estáter, e o Carrefour. Não se sabe quais foram os termos da conversa. O material apreendido, conforme o Estado apurou, é composto basicamente por e-mails.

O Casino ficou sabendo pela imprensa, há cerca de um mês, sobre as conversas entre o empresário brasileiro e o Carrefour para articular uma aliança no Brasil. Diante da notícia, o presidente e acionista do Casino Jean-Charles Naouri, enviou um e-mail para Abilio. A mensagem de resposta confirmava negociações preliminares e dizia que não havia nada mais a ser informado no momento. Naouri também mandou um e-mail a Lars Olofsson, presidente mundial do Carrefour, mas não recebeu resposta.

Hostil. O clima hostil fez com que o Casino entrasse com o pedido de arbitragem. Na prática, tratava-se de era uma advertência pública ao sócio. Na semana passada, a rede francesa enviou mais um sinal: aumentou em 3,3% sua participação no Grupo Pão de Açúcar com um investimento de U$S 363 milhões.

Por trás do conflito está o acordo de acionistas firmando entre Casino e Abilio em 2006. Há um ano, o empresário brasileiro tenta, sem sucesso, revertê-lo. Pelos termos do documento, de junho de 2012, o Casino pode exercer uma opção de compra e passar a deter o controle do grupo. Hoje, o controle é compartilhado entre Abilio e o Casino.

Para pessoas próximas, o motivo do descontentamento de Abilio reside no fato de que ele não quer perder o controle de uma empresa que mudou de patamar. Nos últimos dois anos, o Pão de Açúcar comprou a cadeia de eletroeletrônicos Ponto Frio e fechou uma fusão com a Casas Bahia tornando-se, assim, o maior varejista do País.

O Carrefour, por sua vez, veio a público, nesta semana, para dizer que vai manter o controle de suas operações no Brasil. Lars Olofsson classificou notícias sobre a negociação da subsidiária brasileira como "rumores". Ele não descartou, porém, o que classificou como "oportunidades de crescimento".

Essa não é a primeira vez que notícias sobre a negociação da operação brasileira do Carrefour tomam o mercado. No fim de 2009, sob a pressão de investidores, a rede chegou a conversar com o Walmart. Mas a proposta feita pela americana foi considerada muito baixa na época. Foi então que a rede francesa deu início a um processo de reestruturação, ainda em andamento.

Procurados, Pão de Açúcar, Casino e Carrefour não se manifestaram.

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