Justiça argentina prossegue devassa nos bancos

Apesar da reação das instituições financeiras, a Justiça argentina prosseguiu hoje com uma devassa em bancos, aeroportos e empresas de transporte de valores. O objetivo é identificar os responsáveis por uma evasão de divisas de mais de US$ 20 bilhões, nos dias que antecederam o congelamento dos depósitos bancários no país, o chamado ?curralzinho?, e também logo depois de a medida estar em vigor. A iniciativa tende a engrossar com a criação de uma comissão especial da Câmara dos Deputados para investigar as suspeitas, prevista para a próxima semana, e com o aval discreto do presidente argentino, Eduardo Duhalde. A reação mais clara contra as investigações foi estampada na primeira página da edição de hoje do jornal econômico Ámbito Financiero. Em texto destacado, a publicação afirma que as operações violariam a Constituição e a propriedade privada, e indicam o perigo à democracia. Na madrugada de hoje, a polícia adentrou as sedes dos bancos Galícia, Río, Citibank e Banco de Boston, no centro da capital argentina, em pontos bastante próximos aos do panelaço de cerca de 400 pessoas, que pediam, horas depois, a renúncia de toda a diretoria do Banco Central. Ao longo do dia, os investigadores chegaram ao aeroporto de Don Torcuato, na Grande Buenos Aires, usado normalmente por taxis-aéreos e jatos particulares. Ontem, a devassa conduzida pela Divisão de Investigações Criminais da Polícia Federal recaiu sobre seis bancos e seis empresas, além do Aeroporto Internacional de Ezeiza. A operação foi determinada pelo juíz federal Norberto Oyarbide, com base em denúncia dos advogados Isaac Damski e Augusto Veronelli. As suspeitas de fuga de capitais envolvem o ex-presidente Fernando de la Rúa, o ex-ministro da Economia Domingo Cavallo e o ex-presidente do Banco Central, Roque Maccarone, além de outras autoridades aduaneiras e dos bancos investigados. O juiz Oyarbide explicou que, por enquanto, as investigações se concentram na coleta de material, e não são suficientes para a denúncia formal de nenhuma autoridade nos crimes. Se comprovados os delitos, os envolvidos poderão ser processados por malversação de recursos públicos, fraudes contra o Estado, evasão de capitais e associação ilícita. As investigações poderão, durante a próxima semana, ganhar peso ao serem unificadas às apurações similares da juíza federal María Romilda Servini de Cubría. Hoje, Oyarbide deixou claro que as operações estão vinculadas à solicitação, feita por Duhalde que, em seu discurso de posse, pediu que fossem investigadas as suspeitas de fuga de capitais desde o final de novembro. Embora tenha declarado que sua equipe de governo estava pronta a colaborar, por enquanto o presidente não teria encaminhado nenhum pedido formal de investigação ao Judiciário argentino. A devassa, segundo explicou o juiz, responde à situação econômica e financeira do país. ?Creio que ninguém se esquecerá que o presidente Duhalde, na Assembléia Legislativa, solicitou a investigação dos bancos?, afirmou. Na última quarta-feira, Duhalde teria dado o seu apoio à criação de uma comissão especial de investigação durante almoço com o presidente da Câmara de Deputados, Eduardo Camaño. A identificação e punição dos responsáveis teria também a função de abafar os protestos contra as medidas econômicas e as condições de penúria de parte da população, que hoje explodiram com violência nas Províncias de Córdoba e de Jujuy. ?Precisamos ir até o osso?, teria afirmado o presidente durante o encontro. De acordo com a última edição da revista 3 Puntos, entre março e outubro de 2001, US$ 7,388 bilhões escaparam do sistema financeiro argentino. Somente em novembro, a fuga somou US$ 7,132 bilhões. Entretanto, parlamentares suspeitam que evasão teria alcançado US$ 15 bilhões naquele mês, o que trouxe a suspeita de vazamento de informações oficiais ao mercado. No início de dezembro, o Ministério da Economia decretou o ?curralito?. A reportagem menciona que foram conduzidos três tipos de operações de fuga de capitais. A primeira, as transferências eletrônicas para entidades financeiras no exterior. A segunda fórmula teriam sido os empréstimos a empresas vinculadas no exterior, ou a compra de ações de companhias estrangeiras. A última, mais grosseira, teria sido a transferência física de dólares por supostas caravanas de carros-fortes que teriam cruzado a fronteira para o Uruguai ou descarregado as divisas em aviões.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.