Justiça de Mônaco adia novamente decisão sobre Cacciola

Justificativa é que apenas 50% dos documentos foram retraduzidos para o francês; ex-banqueiro segue preso

Andrei Netto, de O Estado de S. Paulo,

31 de janeiro de 2008 | 09h44

A audiência do caso do pedido de extradição do ex-banqueiro Salvatore Cacciola, por parte do governo brasileiro, na Justiça de Mônaco, foi transferida pela quarta vez pelos juízes do Tribunal de Apelação. A justificativa neste momento, é que apenas 50% dos documentos haviam sido retraduzidos para o francês. O advogado de Salvatore Cacciola, Frank Michel, chegou a pedir aos juízes um habeas corpus solicitando a liberdade de seu cliente, em função do longo tempo que transcorreu de sua prisão, em setembro de 2007, até agora. Mas, o pedido foi recusado. A nova audiência foi marcada para o dia 19 de fevereiro, com a promessa que será a última.  Mais cedo, os representantes brasileiros do Ministério da Justiça, que estão em Monte Carlo para acompanhar os desdobramentos do caso, pediram ao diretor dos serviços judiciários de Mônaco, Philipe Narmino, autorização para acompanhar a audiência, mas não foram atendidos.  Acusações O ex-banqueiro italiano Salvatore Cacciola foi preso pela Interpol no dia 15 de setembro, em Mônaco, na Europa. Condenado a 13 anos de prisão no Brasil por desvio de dinheiro público e gestão fraudulenta de instituição financeira, o ex-dono do banco Marka estava foragido da Justiça brasileira havia sete anos. Cacciola é um dos envolvidos no escândalo do socorro aos bancos Marka e FonteCindam, logo após a desvalorização do real, em janeiro de 1999. O escândalo envolveu ex-funcionários dos dois bancos, do Banco Central e consultores independentes, causando prejuízo de R$ 1,57 bilhão aos cofres públicos. Na época, Marka e FonteCindam tinham muitos contratos atrelados ao câmbio e foram surpreendidos pela desvalorização do real. Alegando "risco sistêmico" - o perigo de uma quebra generalizada no sistema bancário -, o BC ajudou os banqueiros a cobrir o rombo, vendendo dólares por cotação inferior à do mercado. Em 2000, Cacciola foi detido em um spa, no Rio Grande do Sul, e transferido para uma prisão do Rio. Depois de permanecer 37 dias na cadeia, foi solto graças a um habeas-corpus e conseguiu fugir para a Itália. Em outubro de 2005, Cacciola e o Banco Marka foram condenados no processo em que eram acusados peculato e gestão fraudulenta. Caso Marka O Banco Marka e o Banco FonteCindam haviam apostado que o real não seria desvalorizado e venderam vultosos contratos de dólar na Bolsa de Mercadorias e Futuros (BM&F). Quando a política cambial foi alterada, em favor do regime de flutuação do dólar, os bancos constataram que haviam apostado no "perdedor" e, por motivos diversos, ficaram impossibilitados de cumprir os contratos. Os grupos foram "salvos" pelo Banco Central, que vendeu dólares a R$ 1,27 e a R$ 1,32, respectivamente - quando a cotação estava em R$ 1,55 -, em quantidades suficientes para que honrassem os compromissos. Em meio à ampla discussão que se travou, soube-se que a BM&F havia alertado o BC sobre a possibilidade de ocorrer o chamado "risco sistêmico" - situação em que a quebra de uma instituição leva a outras quebras.  Em carta enviada ao BC, a BM&F não mencionou, porém, o nome do Banco Marka. Enquanto os bancos eram salvos, aplicadores no fundo Marka-Nikko, administrado pelo Banco Marka, perdiam quase todo o dinheiro que haviam investido. Matéria ampliada às 8h25

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