Justiça francesa coloca diretora do FMI sob investigação por negligência

Caso de fraude política ocorrido em 2008 com Christine Lagarde quando era ministra de Finanças da França está na Corte de Justiça da República

O Estado de S.Paulo

28 de agosto de 2014 | 02h05

PARIS  - Magistrados franceses colocaram a diretora-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), Christine Lagarde, sob investigação formal por negligência em uma denúncia de fraude política. O caso ocorreu em 2008, quando ela era ministra de Finanças da França, informou ontem seu advogado, Yves Repiquet.

Segundo o advogado, Lagarde, que foi interrogada na terça-feira durante 15 horas pela Corte de Justiça da República, em Paris - instância que julga ministros por delitos cometidos durante mandato -, declarou que a medida é infundada. "Estamos entrando com um recurso contra essa ação", disse Repiquet por telefone, acrescentando que Lagarde, que deveria retornar à sede do FMI em Washington ainda ontem, não tem planos de renunciar ao cargo.

Sob as leis francesas, magistrados colocam alguém sob investigação formal quando acreditam que há indícios de irregularidades, mas isso nem sempre leva a um julgamento.

Acusações. O inquérito está relacionado a alegações de que o magnata Bernard Tapie, defensor do ex-presidente Nicolas Sarkozy, recebeu 403 milhões numa arbitragem pela venda da empresa de equipamentos esportivos Adidas, nos anos 90. A empresa foi vendida pelo banco estatal Crédit Lyonnais (que já não existe) por um preço bem inferior ao de mercado, segundo Tapie, que reclamava do Estado uma indenização.

Lagarde, que foi ministra de Finanças do governo Sarkozy, entre 2007 e 2011, antes de sua chegada ao FMI, decidiu que o processo foi uma arbitragem privada que estipulou a indenização. O fato de o montante não ter sido fixado pelos tribunais levou à investigação judicial por suposta corrupção.

O inquérito já envolveu vários membros do gabinete de Sarkozy e o presidente executivo da France Telecom, Stéphane Richard, que foi assessor de Lagarde no ministério.

Nos interrogatórios anteriores, Lagarde acusou Richard de ter usado sua assinatura pré-impressa em documento que facilitava o pagamento, segundo a mídia local. No entanto, Richard disse que Lagarde tinha total conhecimento do assunto.

Investigadores estão tentando determinar se as conexões políticas de Tapie tiveram papel na decisão do governo de recorrer à arbitragem. O crime de negligência por uma pessoa com responsabilidade pública na França é passível de pena máxima de um ano de prisão e multa de 15 mil.

"Nesse ponto do processo, os magistrados consideram que Lagarde não tinha a intenção deliberada de participar de atividades fraudulentas ao Estado", disse Stephane Bonifassi, advogado do escritório Lebray & Associés in Paris, que não está envolvido no caso. "A decisão que se espera agora é se Lagarde deve ou não ir a julgamento."

"Depois de três anos de processo, a única alegação contra mim é se, inadvertidamente e sem intenção, eu falhei ao não intervir na arbitragem que levou ao fim o longo lítigio de Tapie", disse Lagarde. / AGÊNCIAS INTERNACIONAIS

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