Kirchner aproveita cúpula na Venezuela para vender bônus

O presidente Néstor Kirchner partiu nesta segunda-feira para Caracas, onde participará na terça-feira da cúpula extraordinária de presidentes do Mercosul. Kirchner aproveitará a ocasião para dar uma de "caixeiro viajante", pois tentará convencer o presidente venezuelano Hugo Chávez a adquirir mais títulos da dívida pública argentina. Além disso, no âmbito diplomático em Buenos Aires e Montevidéu não se descarta que Kirchner utilize sua estada em Caracas para reunir-se com o presidente uruguaio Tabaré Vázquez e tente colocar panos quentes na "Guerra da Celulose" que confronta os dois países desde meados do ano passado.O plano de Kirchner, segundo informações extra-oficiais, é o de convencer Chávez para que compre bônus argentinos da dívida pública com o valor de US$ 240 milhões, com vencimento em 2012. O venezuelano transformou-se, desde maio do ano passado, em um bote salva-vidas financeiro do governo Kirchner, que a ele recorre sempre que precisa. Neste ano e meio, Chávez já adquiriu US$ 2,7 bilhões em títulos argentinos, os quais denomina, brincando, de "Bônus Kirchner".No entanto, Kirchner teria idéias mais ambiciosas sobre os títulos da dívida, já que segundo o jornal Ámbito Financiero, o presidente argentino proporia em Caracas a Chávez o lançamento, no futuro próximo, de um bônus "binacional". Neste caso, os papéis da dívida argentina teriam a garantia da Venezuela.Kirchner possui uma relação especial com Chávez. Nos últimos anos, o argentino foi o único líder sul-americano que permanentemente lhe concedeu respaldo político. Na contra-mão, sempre que Kirchner teve problemas financeiros ou energéticos Chávez o socorreu imediatamente.Panos quentesA reunião presidencial em Caracas será mais uma chance para que Kirchner possa reunir-se com Vázquez e tentar colocar panos quentes no confronto existente entre os dois países desde o ano passado.O pivô do conflito é a construção de duas fábricas de celulose no município uruguaio de Fray Bentos, sobre o rio Uruguai, que divide os dois países. Os habitantes argentinos da fronteira, respaldados por Kirchner, exigem que as fábricas sejam removidas dali, já que consideram que elas causariam um "apocalipse" ambiental que levaria ao "colapso" econômico da região. Os uruguaios, apoiados por Vázquez, contra-argumentam, afirmando que as fábricas não poluirão e que elas são essenciais na recuperação econômica do Uruguai (os investimentos de ambas fábricas, de US$ 1,8 bilhão, equivalem a 13% do PIB do país).Diante da resistência de ambos os lados em ceder em suas posições, o caso foi levado à Corte Internacional de Haia, onde está sendo discutido há um mês.Na tarde desta segunda-feira, bispos uruguaios e argentinos reuniram-se para discutir a "Guerra da Celulose". Os dois lados concordaram que existe um "clima propício" para o diálogo em um eventual encontro entre Kirchner e Vázquez em Caracas.FidelA cidade de Córdoba prepara-se para a reunião ordinária de cúpula de presidentes do Mercosul, que será realizada nos dias 20 e 21 de julho. Existem especulações de que o líder cubano Fidel Castro participaria da cúpula como convidado especial.

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