Kirchner começa seu teste decisivo hoje

O governo do presidente Néstor Kirchner tem pela frente, hoje, o teste decisivo de seu tumultuado currículo financeiro. Nesta sexta-feira, começa na prática a operação de reestruturação da dívida pública da Argentina com os credores privados. A batalha será prolongada e promete provocar altos e baixos nas próximas semanas, já que o período para a troca dos 152 títulos velhos (em estado de calote) pelos três bônus novos (reestruturados, com uma significativa redução de seu valor original, de mais de 60%), termina dia 25 de fevereiro, podendo ser prolongado até 4 de março.Os analistas afirmam que nos primeiros dias os mercados registrarão uma afluência significativa de fundos de pensões, companhias de seguros e bancos argentinos, que trocarão os títulos velhos pelos novos. Estes três setores, que em conjunto possuem quase um terço do total dos bônus a serem reestruturados, já fecharam um acordo com o governo Kirchner.Por este motivo, os analistas consideram que nas semanas seguintes a operação terá pouco movimento, com preocupantes ares de calmaria. No entanto, eles afirmam que a maioria dos credores analisará o panorama e esperará até as últimas semanas para aderir à troca. A partir de hoje, os credores poderão solicitar a troca de seus títulos nas principais praças financeiras do mundo. O maior número de credores está concentrado na própria Argentina (38,4%), seguido por Itália (15,6%), Suíça (10,3%) e EUA (9,1%). Do total de donos de títulos argentinos, 43,5% são investidores individuais, enquanto que 56,5% são institucionais. O economista Nouriel Roubini, ex-membro do Conselho de Assessores Econômicos do ex-presidente Bill Clinton, considera a proposta argentina "realista". Em declarações ao jornal "El Cronista", Roubini sustentou que "a menos que o credor seja um masoquista ou tenha uma estratégia muito clara, é melhor aceitar a oferta". Segundo ele, "é hora de fechar este triste capítulo" da História financeira argentina. Front interno - No cenário interno, o governo Kirchner conta com um amplo respaldo dos principais setores da economia e finanças do país. Poucas horas antes do início de "El canje de deuda" (a troca de dívida), o presidente recebeu o apoio da União Industrial Argentina (UIA), que declarou que a proposta permite compatibilizar o pagamento da dívida com o crescimento do país. Para a Câmara de Comércio, a troca de títulos possibilitará ao país voltar a integrar-se na comunidade internacional. Kirchner também obteve o respaldo da Associação de Bancos da Argentina (ABA) e da Associação de Bancos Públicos e Privados da República Argentina (Abappra). Um eventual sucesso do governo na operação de reestruturação da dívida proporcionará amplos dividendos políticos para o presidente Kirchner. Os analistas afirmam que se a troca de títulos concluir em êxito, Kirchner contará com um substancial reforço em seu prestígio, para enfrentar sem problemas as eleições parlamentares de outubro. Essas eleições são decisivas, já que elas definirão o mapa do poder no Congresso Nacional para os próximos dois anos. Além disso, em outubro ficará claro se Kirchner contará com cacife para disputar a reeleição presidencial em 2007.

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