Kirchner consegue congelamento nos supermercados até 2007

O presidente Néstor Kirchner arrancou dos empresários do setor de supermercados o compromisso de manter o congelamento dos preços de quase 400 produtos até dezembro de 2007. O acordo original, assinado nas últimas semanas do ano passado, determinava que sua vigência concluiria em dezembro de 2006. Com o novo - e antecipado - prolongamento, Kirchner tenta blindar seu governo de uma eventual escalada da inflação até depois das eleições presidenciais de outubro do ano que vem, às quais pretende candidatar-se à reeleição.Em troca, o governo prometeu moderar as negociações por aumentos salariais. Os sindicatos anunciaram que em 2007 pretendem um aumento de 15%. Mas, os assessores do presidente indicam que eles terão que se contentar com um aumento de 10%.O governo tomou a decisão de acertar o prolongamento do congelamento de preços depois que verificou, em setembro, que a inflação desse mês havia sido de 0,9%, maior que a prevista. Desta forma, desde janeiro, a inflação acumulada foi de 7,1%. A meta oficial estabelece que a inflação neste ano terá que ser inferior a 10%. A inflação é o maior pesadelo do governo Kirchner, já que a cada 1% de aumento, o número de pobres aumenta em 100 mil pessoas. O fator inflacionário remove popularidade de Kirchner, que por esse motivo, está disposto a combatê-la por todos os meios, incluindo até o congelamento de preços, considerado por grande parte dos economistas portenhos como "antiquado" e "autoritário".O acordo com os donos de supermercados, que foi puramente verbal, será seguido da negociação, nos próximos dias, com os "chinos" (chineses), como denominam-se os mini-mercados majoritariamente de propriedade de imigrantes chineses e coreanos, que controlam 40% do setor em Buenos Aires.Informações extra-oficiais no âmbito empresarial indicam desde o início do ano que o Secretário de Comércio, Guillermo Moreno, costuma iniciar as reuniões com os empresários colocando seu revólver em cima da mesa, sem fazer qualquer comentário sobre a arma. Segundo os rumores, o simbolismo desse gesto costuma intimidar os empresários que participam dessas peculiares reuniões. O resultado é que todos assinam os acordos impostos pela administração Kirchner.Os setores rebeldes costumam ser castigados severamente. Isso foi o que ocorreu com a empresa Shell, que no ano passado aumentou o preço de seus combustíveis. Kirchner reagiu imediatamente, convocando um boicote nacional ao vivo, pela TV. A empresa teve que recuar. No início deste ano, foi a vez dos pecuaristas argentinos, que se recusavam a reduzir o preço da carne. Kirchner retaliou, suspendendo quase todas as exportações. Acuados, vendo que seus contratos eram cancelados e que outros países conquistavam os mercados que eles perdiam, os empresários tiveram que ceder.Nesta semana, o secretário Moreno voltou à carga. Novamente, o alvo foi o setor de combustíveis. Moreno criticou a escassez de diesel e ameaçou dispor ordens de prisão aos empresários que não seguirem à risca a Lei de Abastecimento. "Não é problema nosso como conseguem diesel. É problema das empresas. Elas tem que abastecer o mercado argentino com diesel. E é problema das empresas a forma como farão isso", exclamou.

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