Kirchner descongela lentamente os preços na Argentina

O governo do presidente Néstor Kirchner está descongelando as tarifas de alguns serviços de empresas públicas privatizadas que permaneciam sem alterações desde janeiro de 2002, além dos preços de vários produtos e serviços que foram colocados no "freezer" ao longo de 2006. O descongelamento, no entanto será sutil e gradual, já que Kirchner - em pleno ano eleitoral - não pretende correr o risco de que a inflação se descontrole e provoque a perda de votos. Kirchner conseguiu encerrar 2006 com uma inflação de um único dígito, que ficou em 9,8%. A idéia é que em 2007 ela se mantenha em patamares similares.Depois de ter autorizado aumentos de até 15% para as tarifas de energia elétrica para os consumidores industriais e comerciais (os consumidores residenciais ficarão livres de aumentos neste ano de eleições e só sofrerão a alta de tarifas em 2008), o governo analisa a liberação de preços da carne bovina, elemento fundamental na mesa dos argentinos. O congelamento desses preços causou duros confrontos entre o governo Kirchner e os produtores agropecuários ao longo do último ano. O presidente, para pressionar os empresários, chegou ao ponto - pela primeira vez em 150 anos na Argentina - de proibir a exportação de carne, de forma a redirecionar o produto para o mercado interno, e assim forçar uma queda do preço. Neste caso, para apaziguar os pecuaristas - que foram os únicos em três anos de governo que realizaram marchas de protestos e paralisações de atividades contra a política econômica de Kirchner - o presidente permitiria um aumento de até 10% no preço da carne.O governo também permitiu que os planos de saúde aumentem suas tarifas em 22%. No entanto, em troca desses aumentos, as empresas do setor terão que proporcionar benefícios adicionais para seus clientes.O governo também autorizou um descongelamento contido das tarifas do gás para consumidores de médio e grande porte. A média do reajuste dessas tarifas, que abrangeria basicamente indústrias e comércios, será definida na quarta-feira. Informações extra-oficiais indicam que estaria entre 28% e 32%. O aumento será utilizado para um fundo fiduciário que financiará obras de gasodutos.O aumento de 15% para as tarifas de energia elétrica para indústrias e comércios (mais de 600 mil empresas serão afetadas por esse descongelamento) preocupam as organizações empresariais. Elas argumentam que será muito difícil não repassar esses aumentos para os consumidores de seus produtos e serviços. Os empresários, principalmente os que integram a União Industrial Argentina (UIA), também reclamam das pretensões das centrais sindicais de arrebatar um aumento geral de salários de 19% em 2007. "É um disparate", afirmou o presidente da UIA, Héctor Méndez.ObsessãoA inflação foi a maior obsessão de Kirchner em 2006. Em 2007, ela continuará na agenda presidencial. Motivos existem de sobra para isso, já que Kirchner está de olho nas eleições presidenciais de outubro deste ano. Entre as alternativas especuladas, está a própria candidatura de Kirchner à reeleição. Outra variável implicaria na intenção de que a família Kirchner continue no poder, mas por meio da atual primeira-dama, a senadora Cristina Fernández de Kirchner, que também apresenta bom desempenho nas pesquisa sobre os candidatos presidenciais. A inflação é uma das principais variáveis no humor do eleitorado argentino, que já passou por dois períodos hiperinflacionários em 1989 e 1990, além de várias fases de elevada inflação. A cada ponto percentual de inflação o número de pobres aumenta entre 150 mil e 200 mil pessoas.

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