Kirchner nega manipulação dos índices de inflação

O presidente da Argentina, Néstor Kirchner, negou que seu governo tenha manipulado os índices de inflação, como vem sendo acusado. Mas as suas palavras não ajudaram a acalmar o mercado, a oposição, os economistas e a população. Os bônus em pesos indexados à inflação chegaram a se desvalorizar mais de 1% no início da manhã de terça-feira, e fecharam o dia com perda de 0,15%.A suspeita de manipulação oficial surgiu na semana passada, depois da demissão da chefe do Departamento de Índice de Preços ao Consumidor do Instituto Nacional de Estatísticas e Censos (Indec), Graciela Bevacqua, no cargo havia 15 anos. Sua substituta é vista como mais alinhada com o governo.Na semana passada, os funcionários do Indec ameaçaram entrar em greve, faltando algumas horas para a divulgação da inflação de janeiro, que ficou em 1,1%. A cifra ficou distante das projeções das consultorias, de algo em torno de 2%. O Banco Central (BC) esperava um índice próximo de 1,5%. Os conflitos no Indec tiveram impacto negativo nos títulos indexados em pesos. Segundo analistas, esses bônus perderão a atração. Mas os mais ponderados dizem que "o investidor olha a inflação anual, que foi de 10% em 2006 e está projetado para até 12% neste ano", explica Hernán Fardi, da consultoria Maxinver.Segundo ele, o mercado reagiu mais à forma como foi feita a mudança de nomes no Indec do que à variação dos preços. "É natural que um mês ou outro apresente uma variação maior dos preços", argumenta. Segundo ele, a interferência do governo "não significa que o número oficial será muito diferente dos que são elaborados por outras consultorias porque seria um custo político alto demais".Em meio à polêmica, a oposição aproveita para atirar pedras em Kirchner, que enfrentará eleições presidenciais em outubro. "O governo deixa o país novamente sem estatísticas básicas, como ocorreu no governo militar", disse Roberto Lavagna, ex-ministro de Economia e candidato à Presidência. Em entrevista à Rádio Continental, Lavagna afirmou que o governo fez "uma operação vergonhosa de preenchimento de cargos técnicos, jurídicos, econômicos e estatísticos no Ministério da Economia."Outro pré-candidato presidencial, o deputado Maurício Macri, do partido Pro, criticou Kirchner sem poupar os dados da inflação de janeiro. Ele afirmou que o índice real do aumento do custo de vida foi de 2,1% e não de 1,1% , como divulgou o Indec. "Já não se pode confiar nos números oficiais", disse Macri, acrescentando que seu partido vai fazer levantamento de preços."Não vou permitir que ex-burocratas administrem este governo eleito pelo povo", respondeu Kirchner. Ele atribuiu os temores de manipulação aos economistas que trabalham "amparados em interesses econômicos". Também contestou a imprensa por ter criticado a troca de cadeiras no Indec. "Não nos assustamos com duas capas de jornais porque fazemos uma mudança", ressaltou Kirchner.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.