Kirchner negocia com Bolívia sem participação do Brasil

O ministro do Planejamento Federal da Argentina, Julio De Vido, desembarcará na próxima terça-feira em La Paz, capital da Bolívia, para retomar as duras negociações sobre o preço do gás com os representantes do governo do presidente Evo Morales. Nas últimas semanas, desde o anúncio realizado por Morales de que os preços do gás boliviano destinado à exportação iriam subir de forma substancial, o governo argentino não conseguiu respirar aliviado, cruzando os dedos, na espera de avanços nas discussões com a equipe econômica do presidente da Bolívia.A missão argentina liderada por De Vido tentará convencer a equipe de Morales a definir um preço do gás que não seja excessivamente alto. O valor pago atualmente é de US$ 3,20 o BTU. A administração Morales pretende obter dos argentinos pelo menos o valor de US$ 5,50. Em Viena, neste fim de semana, durante a cúpula de presidentes latino-americanos, caribenhos e europeus, o presidente Néstor Kirchner - por meio de seus assessores - indicou que o preço "aceitável" seria o de US$ 4,50 o BTU.Cenário pior Mas, o cenário poderia ficar pior, já que rumores em Buenos Aires indicam que Morales pretenderia elevá-lo na direção dos US$ 7. A missão anterior, na semana passada, comandada pelo Secretário de Eenergia, Daniel Cameron, tentou convencer o governo boliviano a não implementar preços superior a US$ 5. No entanto, as súplicas argentinas foram infrutíferas.Por esse motivo, Kirchner decidiu enviar o ministro De Vido, conhecido por ser um negociador "durão", e homem de profundos contatos - há uma década e meia - com o setor de gás e petróleo. Além disso, ele é o "soldado" de confiança de Kirchner, a quem encarrega as tarefas "difíceis".Sem Brasil A estratégia argentina para evitar uma alta do preço é desenvolvida sem uma coordenação prévia com o governo brasileiro. Kirchner pretende fechar logo um acordo com Morales, antes que as pretensões bolivianas aumentem mais ainda. Para o argentino não é interessante negociar em conjunto com o governo brasileiro. A dependência de Kirchner do gás boliviano é muito inferior à sofrida pelo governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, já que compra 5 milhões de metros cúbicos diários, volume significativamente inferior aos 25 milhões importados pelo Brasil todos os dias. Além disso, o drama para Kirchner é menor, já que repassaria o aumento no preço para o gás que a Argentina exporta para o Chile. Outra modalidade que poderia ser aplicada pelo presidente argentino é a aplicação de retenções sobre as exportações do produto. Desta forma, evitaria que a alta do preço do gás cause um aumento da inflação argentina (o principal pesadelo de Kirchner atualmente) ou provoque um esfriamento da economia.Paradoxos Só 5% do gás consumido pelos argentinos provém da Bolívia. No entanto, esse volume é necessário para evitar que o país passe novamente pelo risco de uma crise de desabastecimento, tal como aconteceu em 2004 e 2005. Em ambos anos, a Argentina foi salva graças à importação de gás boliviano e à redução das exportações de gás argentino para o Chile.A Argentina era um país auto-suficiente em gás. Mas, nos últimos anos da década de 90, começou a exportar gás para o Chile, que tornou-se um grande dependente desse produto. A recessão que começou em 1998 e o agravamento da crise em 2001-2002 fez que o consumo, especialmente o industrial, despencasse na Argentina. O problema surgiu a partir de 2003 com o reaquecimento da economia (que desde esse ano cresceu em média 9% anual), que implicou em uma elevada demanda de gás para o mercado interno. Em 2004 o país se viu diante da encruzilhada de ter que cumprir os contratos de exportar gás para o Chile e de atender o crescente mercado local. A saída foi importar gás da Bolívia. Desta forma, o país vive o paradoxo de ser, ao mesmo tempo, importador e exportador de gás.

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