Kirchner quer argentinos como "fiscais de seus bolsos"

O presidente Néstor Kirchner quer que "os consumidores sejam fiscais de seus bolsos" na cruzada para impedir uma espiral inflacionária, e "castiguem quem aumentar os preços abusivamente", afirmou uma fonte da Casa Rosada à AE. A declaração da fonte remete aos tempos em que no Brasil havia congelamento de preços, câmaras setoriais e os famosos "fiscais".Porém, na sede do governo argentino, os assessores próximos ao presidente afirmam que "não existe a intenção de controlar os preços via tabelamento". O que Néstor Kirchner "está propondo, através dos acordos com as grandes cadeias de supermercados e produtores de carne bovina e de frango, é baixar os preços", explica.Para que o objetivo do governo dê certo, Kirchner "conta com a solidariedade empresarial para evitar que se disparem os preços dos produtos da cesta básica e que o consumidor pesquise os preços", detalha. A grande preocupação da Casa Rosada é com a cesta básica, porque, se os principais produtos sobem, "há um componente psicológico e todos os demais produtos começam a subir sem uma razão lógica para isso", raciocina a fonte. "O povo não é burro e se dará conta de quem baixou e quem subiu os preços", diz, completando que "o plano do presidente dará certo porque o consumidor vai procurar o mais barato".Se há otimismo do governo com os acordos assinados, do outro lado existe uma certa descrença de que estes irão funcionar. No caso da carne, embora os frigoríficos tenham manifestado a intenção de "colaborar" com a redução de 10% nos preços de cinco cortes básicos de vaca, os açougueiros alegam que será "muito difícil" colocar essa baixa em prática, já que eles compram uma ou meia rés. "É impossível baixar uns cortes e outros não, salvo que subamos o resto", disse Miguel Domínguez, dono de açougue.Já o presidente da Associação de Açougueiros da cidade de Buenos Aires, Manuel Sineiro, duvida da política do acordo ao afirmar que "é preciso ver se esses cortes chegarão aos açougues e não ficarão só nas cadeias de supermercados que são as donas dos frigoríficos".O governo também tenta fazer um acordo de redução de preços da erva mate que, para os argentinos, tem o mesmo peso na cesta básica que o café para os brasileiros. Porém, o diretor do Instituto Nacional de Erva Mate, Hugo Sanz, considera que será "difícil para o governo conseguir um acordo para impedir a iminente alta do preço" desse produto.

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