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Guido Mantega, o ministro da Fazenda demitido pela presidente Dilma quatro meses antes do fim do mandato, não admite que se use o termo estagflação para descrever o atual estado de saúde da economia brasileira.

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

06 de setembro de 2014 | 02h03

Pode-se até evitar o palavrão, mas não se pode negar a combinação de um crescimento econômico no chão com uma inflação na chaminé. Vai ser a referência que estará na cabeça do eleitor, esclarecido ou não, no dia 5 de outubro, dia de comparecer às urnas.

O ministro ainda diria que não passam de cricas impertinentes aqueles que cobram esse grãozinho a mais acima do teto da meta, que ele acredita ser provisório. O problema é que, muito antes de ter chegado onde chegou, a inflação passou a produzir estragos no orçamento do consumidor, o que tem consequência.

Repetir que a atividade econômica está em recuperação e que a inflação está sob controle, como ontem assegurou o secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, Márcio Holland, não melhora as coisas. Quando olha para o PIB mirrado, diz que o comportamento da economia global não ajuda. Mas é incapaz de admitir o efeito positivo quando o assunto é inflação. Nas economias maduras, o avanço dos preços ronda o nível zero e, nessas condições, deveria trabalhar a favor da contenção nos preços por aqui. Se, ao contrário, estamos com uma das inflações mais altas entre os países emergentes é porque as consequências das mazelas internas chegam com mais força do que os fatores externos eventualmente favoráveis.

O investimento, que é produção futura, está em queda livre. E há pela frente um alentado programa de recomposição dos preços administrados, hoje fortemente atrasados.

A baixa dos preços dos alimentos e bebidas poderá prosseguir, mas dificilmente continuará a contribuir para o recuo da inflação em 12 meses. E a escalada dos serviços, que havia dado certa trégua em julho, voltou a acelerar: avançou 0,59% depois do recuo de 0,05% em julho. Mesmo que a inflação feche o ano abaixo do teto da meta, não dá para contar com a convergência para 4,5% antes de 2016. O levantamento semanal feito pelo Banco Central (BC) com cerca de 100 instituições (Pesquisa Focus) apontava na semana passada inflação de 6,27% em 2014 e de 6,29% em 2015.

Sustentam essa conclusão premissas de peso. No contra-ataque à inflação, a administração da economia deixou apenas o Banco Central, que pode pouco. A política fiscal, que já não ajudava, agora trabalha contra. A administração das contas públicas, que já era desleixada e descumpridora de metas, virou um deus-dará. Se houver neste ano algum superávit primário (sobra de arrecadação para pagar a dívida), será irrelevante.

A âncora cambial, por sua vez, ainda está lá, mas tem seus dias contados. Este é outro preço administrado cujo realinhamento o governo terá de permitir.

Não haverá tão cedo condições para que o Banco Central derrube os juros básicos (Selic), hoje nos 11,0% ao ano. Se houver uma mexida, a partir do ano que vem, não será para baixo, e sim para cima. Mas aí a diretoria do BC já não será a mesma e a conversa pode ser outra.

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