Lacerda: déficit de conta corrente pode chegar a US$ 55 bi em 2010

Professor da PUC acredita que valorização do câmbio deve levar saldo negativo para uma marca de US$ 55 bilhões em 2010.

Ricardo Leopoldo, da Agência Estado,

22 de março de 2010 | 13h24

A nova projeção do Banco Central (BC) para o déficit de transações correntes para este ano, que subiu de US$ 40 bilhões para US$ 49 bilhões, é compatível com uma economia que pode crescer 6% neste ano, ponderou o professor da PUC-SP Antônio Correa de Lacerda, especialista em contas internacionais. Contudo, ele diz que a valorização do câmbio, que para ele está em termos reais 15% acima do patamar de equilíbrio, deve levar tal saldo negativo para uma marca ainda maior, de US$ 55 bilhões em 2010. "A deterioração das transações correntes é muito rápida e é insustentável", comentou. "A esperança é que o próximo governo, independente se for de Dilma Rousseff ou de José Serra, ataque este problema com grande prioridade", frisou.

 

Lacerda lembra que o déficit de transações correntes está em plena aceleração, pois, no acumulado em 12 meses, atingiu 1,55% do PIB em janeiro e chegou a 1,66% do PIB em fevereiro, o equivalente a US$ 28,051 bilhões. Isso significa que o patamar do saldo negativo destas contas externas deve subir para um nível quase US$ 21 bilhões maior em apenas 10 meses. "O câmbio valorizado precisa ser alterado, pois a economia está sendo prejudicada de duas formas", comentou. Segundo ele, há um abalo estrutural no processo de modernização da indústria. "É notório que muitos fabricantes de máquinas estão deixando de produzir estes equipamentos de base para se tornar representantes comerciais para vender produtos importados da China", disse.

 

Por outro lado, Lacerda aponta que o real apreciado em relação ao dólar dos EUA por muito tempo gera uma especialização excessiva do País na produção de commodities, uma parte delas semimanufaturadas. Esses dois elementos juntos, aponta o acadêmico, são negativos para a perspectiva de desenvolvimento do Brasil para alguns anos. "A produção básica de commodities não permite a evolução da produtividade geral da economia, impede o avanço de tecnológico em vários setores empresariais, gera empregos de menor qualificação, e, portanto, remuneração mais baixa", destacou. "Além disso, essa realidade traz efeitos sérios imediatos às contas externas, pois estas exportações trazem volumes menos expressivos de divisas", ponderou.

 

Lacerda avalia que o sucessor do presidente Luiz Inácio Lula da Silva deve atacar a questão cambial como uma das prioridades a partir de 2011. Do contrário, ele prevê que o déficit de transações correntes pode saltar de US$ 55 bilhões em 2010 para US$ 65 bilhões no próximo ano. "Acredito que o próximo presidente deve desacelerar um pouco o nível de atividade do País para um crescimento próximo a 4,5% em 2011 a fim de corrigir os problemas mais sérios da economia", afirmou. "Se for adotada uma estratégia para corrigir as dificuldades do câmbio, é possível que no primeiro ano do próximo governo o tal saldo negativo será reduzido para US$ 50 bilhões e talvez recuar para a marca de US$ 20 bilhões no final de 2014", disse.

 

Para o professor da PUC-SP, no entanto, o Banco Central também mostrou previsões positivas para as contas externas neste ano. Ele destacou o aumento da projeção do BC relativa à compra de títulos de longo prazo e ações por estrangeiros no Brasil, que subiu de US$ 25 bilhões para US$ 35 bilhões. "Essa é uma indicação de que o mundo está vendo o Brasil com um grande potencial de expansão e geração de riquezas de longo prazo em diversas áreas produtivas e financeiras", comentou.

 

Lacerda tem contato frequente com empresários alemães e percebeu que há grande entusiasmo das companhias germânicas para investir no Brasil. De acordo com a Câmara do Comércio e Indústria Brasil-Alemanha, antes da eclodir a crise financeira internacional em setembro de 2008, cerca de oito missões de dirigentes de empresas alemãs vinham ao País por ano com interesse de firmar negócios. Para 2010, este número subiu bem, pois estão agendadas cerca de 40 missões. "Há cinco anos, os empresários alemães manifestaram muitas dúvidas em relação ao Brasil", comentou. "Hoje, há grande empolgação e às vezes é preciso dizer que o País ainda tem desafios que precisam ser superados, como a questão do câmbio", ressaltou.

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