Tiago Queiroz/AE-5/1/2011
Tiago Queiroz/AE-5/1/2011

Laep, dona da Parmalat, compra a Daslu em acordo de R$ 65 milhões

Marcus Elias, controlador do fundo, vai injetar R$ 21 milhões na operação e pagar as dívidas com fornecedores em até 72 meses, com deságio de 60%

Naiana Oscar, O Estado de S.Paulo

25 Fevereiro 2011 | 00h00

O fundo Laep Investments, do empresário Marcus Elias, será o novo controlador da Daslu. O empresário, um dos donos da Parmalat, ofereceu R$ 65 milhões pela marca e pelos ativos da butique de luxo da empresária Eliana Tranchesi.

A proposta, aprovada ontem em uma assembleia de credores que durou cinco horas, será agora submetida à Justiça. Elias foi o único interessado a formalizar uma oferta à Daslu - com dívidas privadas de R$ 80 milhões e impostos atrasados que ultrapassam os R$ 500 milhões.

Os mais de cem credores representados por seus advogados no encontro de ontem também validaram o plano de recuperação judicial da empresa, que balizou a proposta da Laep, representada no negócio por duas subsidiárias - a Retail Participations e a Chipilands Holdings.

Como já estava previsto no plano, o que a Laep adquiriu foi uma nova empresa criada a partir da Daslu. A SPE UPI, como foi batizada, herdou as dívidas privadas, a marca, o estoque e uma das lojas de Tranchesi. Hoje, há uma unidade em operação no shopping Cidade Jardim e outra será inaugurada no futuro shopping JK. O emblemático prédio localizado na Marginal Pinheiros pertence na verdade à construtora WTorre, e será esvaziado ainda este ano.

A empresária Eliana Tranchesi tem direito de permanecer com uma das lojas próprias na condição de franqueada da UPI. Ou seja: terá de pagar royalties para usufruir da marca criada por ela. Só no dia 4 de março será definido qual das duas unidades ficará sob controle do fundo e qual delas fica sob o comando da antiga dona.

Pagamento. A proposta de Marcus Elias para comprar a Daslu segue a mesma linha de outros negócios já fechados por ele e que, tradicionalmente, envolvem empresas em recuperação judicial. A Laep vai aportar R$ 21 milhões para capitalizar a empresa e fazer o caixa girar. Os outros R$ 44 milhões são referentes a créditos que a Retail e a Chipilands já tinham com a Daslu - fruto das vezes em que Elias tentou socorrer com empréstimos a dona da grife, sua amiga pessoal. Parte desse recurso integra os R$ 80 milhões de dívidas que a empresa mantinha com fornecedores. O restante, de acordo com o plano de recuperação judicial, terá um desconto de 60% e poderá ser quitado em 72 parcelas, com um ano de carência. A título simbólico, a Laep pagará R$ 1 mil por todas as ações da Daslu. O débito fiscal permanece com Eliana Tranchesi.

A agilidade com que o plano e a proposta do investidor foram aprovados surpreendeu os credores e os próprios sócios da grife. Até semana passada, ninguém imaginava que o assunto seria encerrado já na primeira assembleia.

Pela manhã, um grupo de credores e sócios minoritários tentou suspender a votação com o argumento de que nenhuma decisão poderia ser tomada antes que a marca Daslu fosse submetida a uma avaliação. "A marca é o principal ativo da Daslu", disse Clóvis Brandi, representante do Banco Daycoval, para quem a butique deve R$ 700 mil.

Além do banco e de outros seis credores, o shopping Cidade Jardim, do grupo JHSF, também queria postergar a decisão. A companhia de Zeco Auriemo foi uma das que demonstrou interesse de comprar a Daslu, mas não chegou a fazer uma proposta formal.

As manifestações contrárias, no entanto, foram abafadas pelo interesse de grandes credores, que queriam aprovar logo a venda da empresa e garantir o pagamento da dívida. O HSBC, maior credor individual, com crédito de R$ 18 milhões, foi um dos que votaram a favor.

Satisfeito com o desfecho, o advogado da Daslu, Tomas Felsberg, disse que a proposta "salvou a empresa". "A Daslu continua, vai crescer, abrir outras lojas, expandir", disse. Eliana Tranchesi não terá qualquer participação na nova Daslu, mas poderá prestar consultoria remunerada para a UPI (Unidade Produtiva Isolada).

PARA LEMBRAR

Operação da PF deu início a crise

Os problemas da Daslu começaram 40 dias depois da inauguração da mega loja na Marginal Pinheiros, em julho de 2005. A empresária Eliana Tranchesi recebeu, em sua casa, uma visita de policiais federais durante a Operação Narciso, que investigava crimes contra a ordem tributária. Ela foi condenada a 94,5 anos de prisão por fraude em importações, formação de quadrilha e falsidade ideológica. Chegou a ser presa duas vezes.

Agora, depois de ser abandonada por boa parte das grifes internacionais, a principal loja da Daslu está se desmontando. Três andares já foram esvaziados. Até setembro, a grife deve se mudar para o prédio vizinho, que vai abrigar o shopping JK.

Em entrevista ao Estado publicada segunda-feira, Eliana Tranchesi disse que pretende inaugurar uma nova loja no Rio no mesmo mês. "Eu vou voltar com a Daslu que todo mundo ama", disse a empresária na ocasião.

PONTOS-CHAVE

Receita

O Grupo Daslu fatura por ano aproximadamente R$ 250 milhões. A principal loja da

grife tem uma frequência diária de 800 pessoas e um tíquete médio de R$ 800.

Justiça

Eliana Tranchesi fez o pedido de recuperação judicial em julho do ano passado. Há 120 dias, o plano de recuperação foi entregue para avaliação dos mais de 100 credores.

Assembleia

Na assembleia de ontem, os credores resolveram aprovar a oferta feita pela Laep Investments, de Marcus Elias, apesar do deságio de até 60% no pagamento dos débitos.

Projetos

A empresária Eliana Tranchesi faz planos de abrir uma nova loja Rio de Janeiro, até o fim deste ano. Ela será ainda franqueada da UPI em uma outra loja na capital paulista.

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