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Laep parte para a briga com GP por causa da LBR

Acusações são de que a recuperação judicial da empresa de leite foi prejudicial a acionistas já que maior parte dos ativos foi vendida

Josette Goulart, O Estado de S.Paulo

05 Setembro 2016 | 05h03

A Laep, empresa que ficou conhecida por comprar a Parmalat no Brasil, está acusando seu sócio GP Investiments de ter negligenciado a administração da LBR Lácteos – companhia criada para ser uma “campeã nacional do leite”, mas que hoje está em recuperação judicial. A Laep questiona ainda a forma como está sendo conduzido esse processo, já que a companhia estaria sendo liquidada aos poucos. GP e Laep são sócias na Monticiano Participações, a maior acionista da LBR, e estão brigando em um tribunal arbitral, espécie de Justiça privada. A Laep busca indenizações milionárias.

Apesar de ser uma briga societária, o que pode estar por trás da disputa, segundo fontes, é a tentativa da Laep de se antecipar e se proteger das investigações em torno da fusão que criou a LBR, que teve o apoio do Banco Nacional de Desenvolvimento Social (BNDES). No ano passado, a CPI do BNDES questionou os R$ 700 milhões que o banco de desenvolvimento desembolsou para promover a união da LeitBom com a Bom Gosto, que deu origem à LBR.

A LeitBom pertencia à Monticiano, de GP e Laep, e a Bom Gosto tinha como sócios o empresário gaúcho Wilson Zanatta e o próprio BNDES. A nova empresa, criada em 2010, já nasceu com um faturamento de R$ 3 bilhões e com o intuito de ser uma espécie de “Ambev dos leites”. A maior acionista, com 40% da companhia, era a Monticiano.

Prejuízo. O grande problema que levou o caso à CPI é que apenas dois anos depois que o dinheiro do banco entrou na companhia, a LBR pediu recuperação judicial e o investimento virou pó, registrado como prejuízo pelo BNDES.

Na esteira do que se investigou na CPI, o que a Laep diz agora é que o GP teria tido influência na bancarrota. A principal expertise do GP, fundo que já foi dono de empresas como Submarino e Fogo de Chão, é comprar empresas, dar um choque de gestão e tentar revendê-las mais à frente por um preço mais alto. No caso da LBR, a acusação é de que a empresa foi mal administrada, já que teria deixado de usar créditos tributários, como outras companhias do setor faziam, e isso teria corroído as margens.

Além disso, após o pedido de recuperação judicial, o GP teria estado à frente do plano de recuperação da empresa, que permitiu a venda de quase todas as fábricas para pagamento de credores, liquidando aos poucos a companhia. Fontes próximas à Laep afirmam que a Monticiano, a maior acionista da LBR, não pôde sequer votar na apresentação do plano de recuperação da companhia, pois o estatuto da Monticiano impedia que a empresa participasse de votação caso não houvesse consenso entre seus sócios (GP e Laep).

O plano foi aprovado pelos credores e homologado pela Justiça. Ao todo, foram vendidas 14 fábricas e a estimativa é que foram arrecadados R$ 500 milhões, cerca de um terço de todo o passivo da empresa. Apenas uma fábrica ainda está em funcionamento e sob o guarda-chuva da LBR, que hoje tem faturamento anual em torno de R$ 200 milhões.

O BNDES até agora recuperou, segundo informou sua assessoria de imprensa, R$ 15 milhões. O banco tem a receber R$ 334 milhões como credor, em valores corrigidos. O BNDES também é sócio da empresa, com outros R$ 400 milhões detidos pelo BNDESPar, ou 30% da LBR.

Se por um lado a Laep se lança como acusadora, de outro ela também é alvo de acusação por sua atuação no mercado brasileiro. Seu principal sócio, Marcus Elias, foi apontado pelo Ministério Público Federal como responsável por ter causado um prejuízo de R$ 2,5 bilhões a investidores de títulos da Laep.

O empresário, que responde hoje a um processo criminal, alega que está sendo vítima do GLG, um fundo abutre – aqueles que compram ações na bacia das almas sem qualquer intenção de recuperá-las. O empresário também responde a um processo na Comissão de Valores Mobiliários por ter lesado minoritários. Nem GP nem Laep quiseram falar sobre o assunto porque as disputas em que estão envolvidos são sigilosas.

Para lembrar.A LBR, antes de entrar em crise, tinha um ativo cobiçado nas mãos: a marca Parmalat, que chegou a ser líder de mercado no País. Com a crise financeira da empresa, o rótulo que ganhou notoriedade pela campanha publicitária dos mamíferos chegou a sair de circulação por alguns anos. Em agosto de 2014, a Parmalat foi comprada pela francesa Lactalis, que pagou relativamente barato – R$ 250 milhões – pelas quatro fábricas da companhia. 

A Lactalis chegou a relançar a campanha dos mamíferos no ano passado, mas a estratégia não teve o mesmo impacto. Para se ter uma ideia de como a Parmalat já teve posição dominante no mercado, a empresa chegou a ter 15% do setor de lácteos, deixando para trás gigantes globais como a suíça Nestlé e a francesa Danone. As dificuldades financeiras reduziram a participação de mercado a cerca de um quarto do que já foi, para algo em torno de 4%.

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