Lafer prefere "acordo negociado" para o aço

O ministro das Relações Exteriores, Celso Lafer, disse que prefere um acordo favorável ao confronto, na questão do aço. "Um bom acordo é melhor do que uma excelente demanda", afirmou Lafer. "Uma solução negociada tem efeito imediato e positivo no desempenho exportador, por isso trabalhamos com a hipótese de buscar o entendimento. "Sem acordo, o caminho será reclamar contra a decisão norte-americana na Organização Mundial do Comércio (OMC). Lafer participou da 43.ª reunião anual do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID).É na tentativa de amenizar as restrições impostas pelo governo George W. Bush que o ministro recebe na terça-feira à noite o representante comercial dos Estados Unidos, Robert Zoellick. "Vamos tentar explorar caminhos de convergência",esquiva-se. Nos bastidores, porém, diplomatas confirmam que está sendo elaborada uma lista de produtos norte-americanos sobre os quais o Brasil poderia aplicar retaliações. "Isso é parte do jogo", afirmou um deles. Um negociador revelou que deverá ser aproveitada a sugestão do senador e candidato do PSDB à presidência da República, José Serra, no sentido de utilizar a futura decisão do Brasil a respeito do sistema de TV digital como instrumento para pressionar os Estados Unidos (o Brasil deverá optar entre os sistemas americano, japonês ou europeu).Longe de querer polemizar, Lafer afirmou que o Brasil recebeu "tratamento diferenciado" do governo dos Estados Unidos nas medidas protecionistas do aço. Enquanto as exportações brasileiras foram afetadas em 10% a 15%, segundo cálculos preliminares, as vendas de aço do Japão, Coréia e União Européia sofreram restrições na casa dos 60% a 70%. Ele lembrou que o Brasil reivindicava uma cota de exportação de semi-acabados de aço para os Estados Unidos de 3,5 milhões de toneladas, mas recebeu 2,5 milhões. "Isso está aquém do desejo da indústria, que levou em conta as demandas potenciais futuras, mas é superior às exportações realizadas em 2000 e 2001", observou. Lafer disse que o máximo vendido pelas siderúrgicas brasileiras aos Estados Unidos foi 2,4 milhões em um ano. Os semi-acabados de aço são um importante insumo para a indústria norte-americana. Segundo Lafer, eles são "parte da solução, e não parte do problema" da crise enfrentada pelo setor siderúrgico daquele país.Em relação aos produtos acabados, as restrições foram mais fortes (uma sobretaxa de 30%). "Elas significam o não-acesso ao mercado norte-americano", comentou o ministro. É, portanto, um ponto a ser colocado na mesa de discussões.Na opinião de Lafer, parte desse tratamento especial pode ser creditada à atuação de Zoellick. "Vejo nele um interlocutor competente, aberto ao diálogo e capaz de encontrar soluções positivas", elogiou. "Ele foi capaz de, no meio de uma decisão que evidentemente não nos aguarda, nos diferenciar como parceiros em relação a outros."Lafer disse que a atuação de Zoellick foi fundamental nas duas principais vitórias obtidas pelo Brasil na rodada de negociações da OMC, que ocorreu no ano passado em Doha, no Catar. "Foi graças ao entendimento com ele que chegamos ao acordo de patentes em saúde pública", disse. Foi acatada a posição do Brasil pelo qual o acordo prevê que as regras de proteção à propriedade intelectual sobre medicamentos não prevalece sobre os interesses das políticas nacionais de saúde. "Ele também teve um papel-chave em um ponto de grande interesse do Brasil, que é o mandato agrícola", comentou.Técnicos do governo brasileiro e do Instituto Brasileiro de Siderurgia (IBS) estão calculando o exato impacto da decisão dos Estados Unidos sobre as exportações. Preliminarmente, ele foi estimado em 10% a 15%, coincidindo com o dado informado pelo próprio Zoellick, ao anunciar as restrições. Mas, explicou Lafer, cálculos mais precisos sobre o impacto presente e futuro estão sendo elaborados, para embasar um possível questionamento da medida na OMC.

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