Martin Bureau/AFP
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Lagarde é escolhida para comandar o FMI

Atual ministra de Finanças da França, ela foi eleita por consenso e será a primeira mulher a ocupar o posto desde a criação do fundo, em 1944

Denise Chrispim Marin, O Estado de S.Paulo

29 de junho de 2011 | 00h00

CORRESPONDENTE/ WASHINGTON

Poucas horas depois de receber o apoio explícito dos Estados Unidos, a advogada francesa Christine Lagarde foi escolhida para o posto de diretor-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI).

Primeira mulher a ocupar a função desde a criação do Fundo, em 1944, a atual ministra de Finanças da França iniciará no próximo dia 5 seu mandato de cinco anos. De Dominique Strauss-Khan, derrubado em função de um escândalo sexual, herdará a agenda delicada da crise da Grécia e de seus potenciais riscos para a União Europeia e mesmo para os EUA.

Lagarde foi eleita ontem por consenso pelos 24 membros da diretoria executiva do FMI. Pesou nessa escolha o endosso do secretário do Tesouro dos EUA, Timothy Geithner, em detrimento do candidato oponente, o presidente do Banco Central do México, Agustín Carstens. Com a posição americana sobre a mesa, a decisão prevista para amanhã acabou antecipada. "O talento e a experiência da ministra Lagarde darão uma valiosa liderança a essa instituição indispensável em um momento critico para a economia mundial", afirmou Geithner.

Ainda titular do Ministério de Finanças da França, Lagarde valeu-se de um comunicado para reafirmar seu compromisso de "assegurar a relevância, a responsabilidade, a efetividade, a legitimidade" do FMI, para ser possível "alcançar um crescimento (econômico mundial) mais forte e sustentável, a estabilidade macroeconômica e o melhor para todos".

Ao explicar o voto dos EUA, o país com maior peso na escolha por causa de suas cotas no FMI, o porta-voz da Casa Branca, Jay Carney, afirmou ser Lagarde "a melhor candidata possível" e "uma excelente escolha". Mencionou o fato de ela ter sido "apoiada por duas economias emergentes, a Rússia e a China". Ao fazer essa escolha, Washington distanciou-se de seu vizinho, sócio comercial e histórico aliado, o México. Indiretamente, reiterou a fórmula adotada em 1944, segundo a qual o FMI deve ser conduzido por um europeu e o Banco Mundial, por um americano. Há duas semanas, a secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton, desmentira artigo da Reuters sobre sua intenção de concorrer à presidência do Banco Mundial em 2013.

Em sua campanha, o mexicano Carstens não conseguiu mobilizar o apoio das principais economias emergentes, mesmo valendo-se do argumento do "conflito de interesses" presente na possível escolha de Lagarde - uma europeia exposta à tarefa de lidar com a crise da dívida europeia. Além da Rússia e da China, o Brasil e a Índia apoiaram a candidatura da ministra francesa, com base em um consenso implícito de não ser este o momento mais adequado para o representante de uma economia emergente liderar o principal organismo financeiro internacional.

A advertência do presidente do Federal Reserve (banco central dos EUA), Ben Bernanke, sobre o "efeito significante" de uma possível "moratória desordenada" desse país, feita na semana passada, terá um peso adicional nos ombros de Lagarde. Sua escolha foi anunciada justamente em mais um dia de tumulto nas ruas de Atenas, em um mês nos quais os indicadores econômicos dos EUA não apontaram melhorias e em um momento de sérias preocupações sobre uma nova onda crise financeira em cadeia, a partir de instituições americanas e europeias.

O Fundo garantiu à Grécia, no ano passado, um pacote de socorro de US$ 140 bilhões. Ontem, logo depois do anúncio do FMI, Lagarde pediu ao principal partido de oposição ao governo grego seu apoio para a aprovação das medidas de austeridade fiscal. Em entrevista à rede de televisão francesa TF1, ela informou que seguirá a linha de Strauss-Kahn em favor de maior regulação no sistema financeiro. "Se há uma mensagem que eu tenha de dar nesta noite será para dizer à oposição grega que se junte ao esforço nacional com o partido que está no poder", disse Lagarde, para quem a saída da Grécia da zona do Euro seria o pior cenário.

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