Ueslei Marcelino/ Reuters
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Pedro Fernando Nery
Doutor em Economia
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Lamento a perda de referências que as famílias passam para seus filhos, como a honradez

Obama parece resumir a masculinidade a uma palavra. E é cuidado. Será então que o Brasil vive uma crise de masculinidade?

Pedro Fernando Nery*, O Estado de S.Paulo

14 de dezembro de 2021 | 04h00

Aconteceu de novo. Agora, foi o ministro da Saúde, um médico, desprezando a vida da população no exercício de uma posição de comando que deveria ser nobre. Sobre a exigência de vacinação contra a praga, disse que era melhor perder a vida do que a liberdade. Como o leitor, pensei em várias adjetivações impolidas ouvindo a fala. Mas pensei também na falta de hombridade.

“Onde foram parar os machos?”, escreveu há alguns anos um articulista bolsonarista, em uma provocação que repercutiu na internet. Ele se referia a um excesso de fragilidade, de sensibilidade, de um certo homem moderno. Não é a isso que me refiro. 

Refiro-me mais à molecagem. Como a do general que se vacina no escuro ou troça da doença antes de ela matar mais 600 mil, sem jamais pedir desculpas. A dos coronéis que se envolvem em negociatas com vacinas que salvam senhoras. Ou a do sujeito que fez o juramento de Hipócrates, ascende ao cargo mais importante de sua profissão e levanta o dedo do meio – literal e figurativamente, como quando enuncia seu liberalismo de cemitério.

Antes de ser papa, Joseph Ratzinger era um respeitado ideólogo conservador. Ele falava, na verdade, em uma crise de paternidade, mas tampouco estava tratando da falta de vigor ou virulência dos homens. O futuro Bento XVI aludia ao papel do homem como protetor: falava em “responsabilidade para com o outro” e “responsabilidade para com a verdade”. É esta conduta que estaria desaparecendo. 

É neste sentido que lamento nossa perda de referências, que as famílias em várias sociedades passam para os seus filhos como exemplos de valores associados à hombridade, como coragem ou honradez. O presidente. O militar. O médico. Bom, é verdade que ainda temos o bombeiro. Para alguns, há o Rodrigo Hilbert

Barack Obama refletiu sobre masculinidade no seu último livro e no podcast Art of Power. O ex-comandante das Forças Armadas mais poderosas da história tem visão semelhante à de Ratzinger. Idealiza o homem como fonte de segurança – no caso do político, com o dever de proteger cidadãos contra doenças, abandono, destruição ambiental. Parece resumir masculinidade a uma palavra. E é cuidado. 

O Brasil vive uma crise de masculinidade? Faço a divagação nesta coluna não só pela insistência dos gerentes da pandemia em transparecer covardia com os mortos, os sequelados e suas famílias. Mas pelo próprio fim de ano. É que, neste mês, cristãos celebram o nascimento de Jesus Cristo. Nos escritos de Ratzinger, “o homem perfeito”.

*DOUTOR EM ECONOMIA

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