Marcus Desimoni
Marcus Desimoni

‘Lançaremos o primeiro título sustentável no exterior’

Segundo executivo, Banco de Desenvolvimento de Minas prepara a captação de até US$ 50 milhões junto a investidores

Entrevista com

Sergio Gusmão Suchodolski, presidente da Associação Brasileira de Desenvolvimento e do BDMG

Adriana Fernandes, O Estado de S.Paulo

14 de dezembro de 2020 | 05h00
Atualizado 14 de dezembro de 2020 | 13h10

BRASÍLIA - Apesar da imagem ruim do Brasil no exterior na área ambiental, a resposta à pandemia da covid-19 ampliou as linhas de crédito atreladas aos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (OBS), da Organização das Nações Unidas. Presidente da Associação Brasileira de Desenvolvimento (ABDE), Sergio Gusmão Suchodolski diz que relatório da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) apontou o potencial das instituições financeiras de desenvolvimento para fomentar novos instrumentos de crédito com o carimbo da sustentabilidade. A primeira emissão de bônus de sustentabilidade, com DNA ambiental e social, está programada para ocorrer nos próximos dias pelo Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais (BDMG). “Esperamos que, muito em breve, esse tipo de operação em escala se torne uma realidade e o mercado cresça”, diz Suchodolski, que comanda também o BDMG.

A covid-19 exige ainda mais a necessidade de mobilizar financiamento para a agenda de sustentabilidade, mas a grande maioria dos fluxos financeiros não está alinhada ao Acordo de Paris sobre mudanças climáticas. Está faltando dinheiro para o Brasil?

Não diria que está faltando recursos. Mas exige certa disciplina, algumas métricas de como será feito o uso do recurso para fazer os fluxos financeiros chegarem ao Brasil, sobretudo com uma gama de instrumentos diferentes. Na semana passada, a OCDE apresentou um relatório sobre o papel das instituições financeiras de desenvolvimento brasileiras no financiamento sustentável. 

O que diz o relatório?

É uma iniciativa da OCDE em parceria com a cooperação alemã, a GIZ, e o BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento). Ele demonstra o interesse da OCDE pelas instituições financeiras de desenvolvimento brasileiras. Nós estamos no radar e há grande interesse na nossa atuação na implementação das agendas de sustentabilidade na ponta, atuando como bancos de última milha.

O que é uma instituição de última milha?

Banco de última milha, sobretudo, as instituições financeiras subnacionais, que é o caso do BDMG (Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais), as agências de fomento, os bancos públicos estaduais e regionais, estão muito próximos do tema local, de financiamento dos municípios, micro e pequenas empresas. Eles têm um conhecimento do terreno mais profundo do que os bancos multilaterais, que têm suas sedes em Washington, Luxemburgo e Londres.  Atuam em parceria numa espécie de cascata em que o recurso vem deles e passa por nós e fazemos uma aplicação direta na ponta. Já foi verificado que conseguimos fazer isso com muito mais eficiência. 

Qual é a participação dessas instituições na oferta desse tipo de crédito?

O que o relatório apresenta é que temos no Brasil carteiras que já tinham uma presença relevante de porcentual de créditos sustentáveis, 17% no caso do BNDES e 15% do BDMG. Houve um aprofundamento muito significativo de 2018 para 2020. O BDMG está terminando o ano com 56% da carteira alinhada aos temas da sustentabilidade.O que vimos foi uma aceleração do fluxo de recursos carimbados para a sustentabilidade. A nossa resposta à crise da covid-19 se deu ao mesmo tempo e integrando nela o aprofundamento do tema da sustentabilidade. 

O relatório aponta que no Brasil já se utiliza uma série de ferramentas do chamado financiamento misto, blended finance. Como funciona?

É uma série de instrumentos que reúne diferentes fontes de capital de maneira a mobilizar o tema da sustentabilidade. Ele pode vir como  garantia, como instrumento de crédito  para a redução de taxa e alongamento de prazos, um capital que se junta para cofinanciar e viabilizar projetos que apontam maior risco. Vamos lembrar que nós somos um País em desenvolvimento e, dependendo da categoria de projetos e da região que está sendo executado, apresenta mais risco. É uma gama bastante variada, que as instituições financeiras de desenvolvimento do País estão já operando e querem operar em maior escala. Um dos pontos do relatório é como vamos escalar esses instrumentos. Tem no DNA a sustentabilidade, mobilizando capital de diversas fontes para o tema da sustentabilidade, que pega o ambiental e social. 

A covid-19 de alguma forma acelera esse processo, já que a sustentabilidade está atrelada ao meio ambiente e o social?

 Sem dúvida. O que observamos em 2020 é não só uma atuação robusta de programas anticíclicos de todas essas instituições, mas vimos um aprofundamento de linhas e recursos que estão atrelados aos 17 OBS (Objetivos de Desenvolvimento Sustentável). É um anticíclico combinado com uma atuação na sustentabilidade.

No governo Bolsonaro, o Brasil está com a imagem arranhada na área de sustentabilidade. Como atrair o financiamento nesse cenário?

Nós temos relações de longo prazo, somos uma federação, então os Estados têm certa autonomia no seu relacionamento internacional. A ABDE (Associação Brasileira de Desenvolvimento) tem parcerias de longuíssimos prazos, que ultrapassam mandatos específicos. Só em 2020, as instituições financeiras de desenvolvimento captaram mais de US$ 2 bilhões em operações de sete instituições que têm operações externas. No BDMG, captamos mais de R$ 2 bilhões com bancos multilaterais e agências de desenvolvimento internacionais São números robustos e acreditamos que esse número vai crescer, inclusive não só de operações de crédito direto, mas de outros instrumentos que começam a ser operados.

De que tipo?

O BDMG está a poucos dias de fazer uma emissão de títulos sustentáveis no mercado internacional. 

O que tem de diferente do que já foi feito?

Não é uma linha de crédito com um banco multilateral. É uma emissão de um título sustentável. Portanto, nós poderemos acessar um pool de investidores que vai além de bancos multilaterais. Investidores institucionais, fundos soberanos poderão investir nesse bond que será emitido fora do País. Estamos fazendo o registro dele em Nova York. É a primeira vez que um banco de desenvolvimento brasileiro vai fazer uma emissão desse tipo e acreditamos que os outros seguirão.

Nem mesmo o BNDES tinha feito uma emissão desse tipo?

Ele tinha feito uma emissão de títulos verdes (green bonds) em 2017 em Luxemburgo e recentemente de um Letra Verde aqui no Brasil. Mas será a primeira vez que faremos uma emissão de um bond sustentável no exterior.

Qual a diferença?

O green bond pega só o aspecto ambiental (o dinheiro levantado costuma ser carimbado para o uso específico em determinado projeto). O sustainable bond abrange o social e ambiental. A captação é mais ampla e o uso do recurso. Desenvolvemos um modelo que está publicado alinhando aos 17 OBS. Já temos os investidores e estamos na fase final para dar esse passo relevante. Tenho certeza que outras instituições vão seguir de maneira que a gente possa criar um mercado de captação de recursos sustentáveis. Estamos na reta final para emissão de US$ 50 milhões. Já temos um grupo de investidores que fará esse investimento nos Estados Unidos e na Europa. Esse é um patamar de entrada porque é nossa primeira emissão. Numa segunda e terceira emissões, pretendemos fazer na faixa de US$ 100 milhões, US$ 150 milhões. Seria uma faixa adequada, várias das nossas captações estão nessa faixa.

Que tipo de projetos esse dinheiro vai financiar?

Desde projeto de energia renovável, saneamento, tratamento de água, iluminação pública, micro e pequenas empresas, projetos de empreendedoras mulheres.

O que os investidores estão de olho ao financiar esse tipo de bônus?

São instituições que têm o mandato de financiar o desenvolvimento sustentável no mundo, porque têm uma preocupação com a agenda sustentável como um todo. E acreditam que as instituições financeiras de desenvolvimento vão conseguir cumprir o desafio. Bancos privados e algumas empresas fizeram captação recente de green bonds. Poucas, está no começo. Para se ter uma ideia, no Brasil houve apenas uma emissão de títulos sustentáveis feita por uma empresa até hoje (a empresa de papel e celulose Suzano). Nós seremos a primeira instituição financeira.

Quanto o País pode atrair desses recursos mesmo com a imagem ruim?

Precisamos desmistificar e apresentar o que estamos fazendo no terreno para além dos discursos inflamados de lado a lado. É óbvio que existe um desafio ambiental e social muito grande no Brasil, que é um País cheio de contraste e precisamos mobilizar recursos justamente para avançar na agenda e dar conta dos desafios. É importante apresentarmos os projetos de maneira bem pragmática e concreta. Esperamos que muito em breve esse tipo de operação em escala se torne uma realidade e o mercado cresça. Vamos dar uma resposta. 

Como esse modelo pode ser transferido para outros bancos?

A ABDE funciona como uma plataforma de compartilhamento de conhecimento. Temos um laboratório de inovação em finanças, o LAB. De maneira que um banco de desenvolvimento faz possa ser reproduzido por outro parceiro. Temos também uma fábrica de projetos de infraestrutura tanto municipal como estadual. Já estamos entregando. 

O BC tem uma agenda de sustentabilidade. Como ele pode ajudar nesse mercado?  

No papel de regulador, eles podem fomentar esse mercado ajudando a melhorar as normas do BC e, sobretudo, se eles puderem ampliar os instrumentos de captação para as instituições financeiras de desenvolvimento. Nós passamos a década de 90 em programas de saneamento, de instituições que eram problemáticas. Hoje, temos um sistema que está bem robusto e preparado para operar esses instrumentos mais sofisticados. Há alguns projetos no Congresso que tratam de novos instrumentos de emissão. Seria uma grande vitória terem eles aprovados para fomentar esse mercado.

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