Sérgio Castro/Estadão
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Lance por Galeão surpreende mercado

Especialistas discutem como a Odebrecht pode obter lucros com o aeroporto depois de pagar muito mais do que se esperava  

Josette Goulart, Antonio Pita e Circe Bonatelli, O Estado de S. Paulo

22 de novembro de 2013 | 21h47

Hotéis, restaurantes, shopping, cinemas, jardins, playground para crianças, estacionamentos, casas de câmbio e tudo o mais que for possível oferecer de serviços a passageiros em trânsito no aeroporto internacional do Galeão, no Rio de Janeiro, devem ser a linha de frente da concessionária liderada pela Odebrecht, que ganhou nesta sexta-feira o leilão com um lance de R$ 19 bilhões, para garantir o retorno de seu investimento.

Algumas estimativas mostram que essas receitas, chamadas acessórias, terão que representar 70% do total do faturamento para um retorno satisfatório. Além da outorga, a concessionária precisa investir cerca de R$ 6 bilhões em infraestrutura. Uma importante consultoria que possui modelos de rentabilidade para concessões de aeroportos estima que para um retorno de 6,49%, que era o considerado ideal pelo governo federal para remunerar o investimento nos aeroportos, a receita anual da concessionária precisa chegar a R$ 2,1 bilhões. Levando em conta o fluxo de passageiros estimado pelo governo para o Galeão, apenas um terço desta receita seria das tarifas aeroportuárias.

"O lance foi de fato elevado se considerado que em Guarulhos que tem fluxo muito maior de passageiros a concessionária vencedora pagou R$ 16 bilhões. Mas temos que levar em consideração que a Odebrecht precisava levar esta concessão se quisesse entrar de verdade no ramo", disse um consultor que auxiliou os vencedores de outros leilões no País.

O lance vencedor de R$ 19 bilhões foi 16% mais elevado do que o ofertado pelo segundo colocado, de R$ 16 bilhões. Em relação ao lance mínimo, foi 293% maior. O terceiro colocado, um consórcio liderado pela Ecorodovias com a Invepar como sócia (que foi a vencedora do leilão de Cumbica), ofereceu R$ 13 bilhões. De acordo com uma fonte desse consórcio, para dar o lance a rentabilidade estimada sobre o investimento seria entre 7,5% e 9,5% ao ano. "Mas o consórcio vencedor pode ter vislumbrado uma receita comercial maior do que vislumbramos", diz a fonte.

A Odebrecht terá como parceria a operadora Changi, de Cingapura. No aeroporto da cidade asiática, o que não falta é serviço aos passageiros. Hotéis com piscina, jardins para passeios, espaços de entretenimento com jogos eletrônicos, todo tipo de lojas e restaurantes, cinemas e até teatro atenderam os cerca de 50 milhões de passageiros que passaram pelas instalações no ano passado.

O fluxo no Galeão é bem menor. O número atual é de 17,5 milhões e a estimativa do governo é de que seja de 60 milhões em 2038, no final da concessão. Na avaliação do presidente da Sociedade Brasileira de Pesquisa em Transporte Aéreo, Erivelton Pires Guedes, os concessionários podem ficar pressionados nos retornos sobre seus investimentos e lembra que os investimentos são complexos pois envolvem grandes desapropriações e riscos ambientais.

A acirrada disputa pelo aeroporto de Confins, em Belo Horizonte, também chamou a atenção do pesquisador. Mas ele acredita que a CCR pode obter um retorno ainda melhor que a Odebrecht no Galeão, diante da exigência menor de investimentos. "O governo de Minas faz um planejamento há dez anos para o distrito do aeroporto ser uma área industrial, gerando maior desenvolvimento associado ao terminal. Com a concessão, há possibilidade de destravar a burocracia desses projetos e a concessionária pode ter um retorno significativo com maior tranquilidade", pontua.

O professor de microeconomia da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e sócio-diretor da consultoria Pezco Microanalysis, Cleveland Prates, concorda que para equilibrar o caixa a tendência é que o crescimento das receitas ocorra por meio da ampliação do mix de negócios e aumento nos preços de produtos e serviços destinados aos consumidores que passam pelos terminais e não somente no Galeão, mas também em Confins. 

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