Lanterna na popa e bola pra frente

Análise: Joel Velasco

FOI REPRESENTANTE-CHEFE DA UNICA EM WASHINGTON. HOJE, É VICE-PRESIDENTE DA AMYRIS, O Estado de S.Paulo

24 de dezembro de 2011 | 03h03

Após três décadas, a tarifa de importação sobre o etanol de cana de açúcar acabou nos EUA. A doce vitória é fruto dos esforços de vários atores. É bom refletir sobre o resultado, como dizia Roberto Campos, "com a lanterna na popa", mas tendo claro também os desafios à frente.

O fim da tarifa é resultado de um enorme trabalho do setor sucroenergético, liderado pela Unica, que representei em Washington por mais de três anos. Nunca um setor da indústria brasileira se organizou tão bem para defender seus interesses e derrubar uma barreira comercial. Dos editoriais dos jornais aos milhares de americanos que se juntaram à nossa campanha, a mensagem que derrubou o protecionismo foi clara: o etanol de cana é um combustível renovável que deixa o ar mais limpo e o bolso do consumidor mais cheio.

Como um desses atores que trabalharam pelo fim da tarifa, compreendo que a vitória tenha, neste momento, um travo meio amargo. Afinal, o ano em que o Brasil conseguiu abrir o acesso ao maior mercado do mundo é também o ano em que o Brasil deixou de ser o líder no mercado global de etanol. Em 2011, os EUA vão exportar 4 bilhões de litros, dos quais 25% para o Brasil, país que alguns chamam da Arábia Saudita dos biocombustíveis.

São conhecidas as razões das dificuldades que enfrenta o nosso etanol: a produção de cana não acompanhou o rápido aumento da demanda. Não há dúvida de que a falta de investimentos e outros fatores, como clima e câmbio, ajudam a explicar a perda momentânea de competitividade do etanol brasileiro.

Mas não há razão para pessimismo. Ao contrário, o fim do protecionismo nos EUA abre o caminho para recolocarmos a bioenergia renovável de volta à rota do sucesso. A era das biorrefinarias está começando, graças à performance ambiental e energética da cana.

A vida é um filme, não uma fotografia, diz um ilustre executivo do setor. De fato, neste momento de merecida celebração, é importante refletir de maneira positiva sobre o futuro do setor sucroenergético. Como sabemos, não depende só de mercados livres lá fora, mas também do dever de casa bem feito.

Precisamos investir na cana, sobretudo em novas variedades, e na ampliação das usinas. Precisamos também trabalhar com o governo por políticas favoráveis à bioenergia no mercado mundial, a começar pelo Brasil. Assim, teremos não só uma foto deste momento de glória, mas um filme sobre uma geração empenhada em entregar aos filhos um "país numa trajetória de progresso sustentado", como sonhava o estadista Roberto Campos.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.