Las Vegas aposta alto. E perde

Investimentos bilionários no paraíso dos jogos são engavetados com a queda de turistas e da receita dos cassinos

Paula Pacheco, O Estadao de S.Paulo

06 de setembro de 2009 | 00h00

Nem as luzes coloridas das máquinas de caça-níqueis, com apostas a partir de 1 centavo de dólar, têm o poder de espantar, ainda que momentaneamente, o clima de melancolia.

As garçonetes, enfiadas em seus vestidinhos brilhantes, disfarçam o tédio enquanto equilibram a bandeja de inox e fitam o horizonte em busca de clientes. Diante da falta de apostadores nos cassinos, crupiês jogam conversa fora com os colegas de pôquer e de 21 da mesa ao lado.

Las Vegas, que tem no DNA a diversão e os aspectos superlativos, tornou-se um dos mais tristes símbolos do declínio do império americano depois de setembro de 2008.

Na Sin City, a Cidade do Pecado, como é conhecida pelo mundo, a interpretação dos sete pecados capitais mudou.

Gula, só se for nas promoções dos restaurantes. A avareza tomou conta do espírito dos visitantes. Com a falta de dinheiro, a luxúria saiu de moda e deu lugar à monogamia. Do significado original, talvez só tenham restado a vaidade - porque em Vegas ninguém desce do salto - e a soberba, porque "Vegas é Vegas", ouve-se dos moradores e turistas.

A história centenária da cidade mais importante de Nevada (Estado na Costa Oeste americana) tem megainvestidores do porte de Steve Wynn, Howard Hughes e Donald Trump, que apostaram no desenvolvimento do que seria mais tarde uma espécie de Disney World dos adultos no meio do deserto.

Hoje, a realidade é bem diferente. Grandes grupos, abatidos pela crise econômica, simplesmente interromperam os investimentos.

É o caso do The Echelon, o maior dos seis hotéis do conjunto de prédios da Boyd Gaming Corporation. O projeto total é avaliado em US$ 4,8 bilhões. Paralisada há um ano, a obra virou um esqueleto encravado entre outros hotéis de luxo da cidade. A direção do grupo espera retomar o projeto no ano que vem.

O nada conservador Donald Trump foi outro que colocou o pé no freio depois que a economia americana começou a virar poeira. Depois de levantar uma torre de US$ 1,2 bilhão, o milionário engavetou por tempo indeterminado o projeto de construir um segundo prédio.

Os donos da rede hoteleira Hilton tomaram a mesma precaução de Trump. Investiram em duas edificações em Las Vegas e protelaram outras duas até a demanda dar sinais de que voltou de fato.

NÚMEROS PREOCUPANTES

Segundo a Las Vegas Convention and Visitors Authority (LVCVA), espécie de secretaria de turismo da cidade, o volume de visitantes na cidade na comparação entre junho de 2008 e de 2009 caiu 6,3%.

A ocupação nos meios de hospedagem encolheu 7,2%. Para tentar contornar o problema, o jeito foi reduzir o valor das diárias nos hotéis, que saíram de uma média de US$ 113,48 para US$ 84,50 ( 25,5% menos).

O solavanco em Las Vegas tem a ver principalmente com o fato de a cidade depender dos visitantes americanos e, em menor proporção, dos mexicanos - cerca de 80% da frequência vem do mercado doméstico. Estados Unidos e México são duas das economias que mais sofreram com os abalos da economia global.

As baixas na cidade americana que parecia não saber o que era economia enfraquecida não param por aí. Até as convenções de empresas, um carro-chefe de Las Vegas, minguaram. No comparativo entre junho de 2008 e 2009, a queda foi de 18,9%.

ATÉ OBAMA JOGOU CONTRA

O presidente americano, Barack Obama, tem um dedo de responsabilidade na fuga das empresas que costumam fazer suas convenções na Cidade do Pecado. Em fevereiro, Obama, preocupado com a recessão, mandou um torpedo em direção ao prefeito de Las Vegas, Oscar Goodman. Ele sugeriu aos executivos que suspendessem, nesse momento tão delicado da economia dos EUA, a realização de convenções na cidade. Goodman, é claro, reagiu mal e exigiu um pedido de desculpas.

Uma das consequências da maré de azar da economia local é a baixa no movimento dos aeroportos - 11,4% abaixo do registrado em junho do ano passado.

É claro que a retração da atividade turística não poupou a jogatina. A receita bruta com os jogos nos cassinos da região da Las Vegas Strip (onde estão hotéis de luxo como Bellagio, Caesar Palace, Luxor, Mandalay e MGM) diminuiu 14,7%. Para a LVCVA, a queda já se estabilizou, graças a uma campanha de marketing para promover a cidade.

Idealizada para abrigar e garantir a diversão das horas de folga dos trabalhadores que construíam a ferrovia que ligaria Salt Lake City e Los Angeles, no fim do século 19, Las Vegas espera pela volta do brilho e do neon.

O MGM Mirage, associado a um grupo de investidores de Dubai, preferiu ser exceção num período tão desfavorável da economia. Com investimento de US$ 8,4 bilhões, o maior da história de Las Vegas, começa a ser inaugurado no mês que vem o empreendimento CityCenter, que terá resorts, escritórios, área para convenções e apartamentos residenciais.

A repórter viajou a convite da Las Vegas Convention and Visitors Authority, American Airlines e Encore/Wynn

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.