Adriano Machado/ Reuters
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Laura Karpuska
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Bolsonaro percebe que deve perder a eleição e tenta antecipar o caos para se beneficiar

Militares não devem ter espaço no processo eleitoral a não ser como eleitores; eleições democráticas são civis em sua essência, ainda mais num país cuja história é manchada pelo autoritarismo militar

Laura Karpuska*, O Estado de S.Paulo

15 de julho de 2022 | 04h00

Penso com frequência na história da mulher alemã que, assim que caiu o Muro de Berlim, em 1989, tomou providências para devolver um livro atrasado. Foram décadas de atraso por causa de um muro, que a separou de sua biblioteca. Não sei se a história é uma dessas lendas urbanas que, de tão repetidas, são contadas como se fossem verdades inabaláveis. De toda forma, ela simboliza um desses marcos de que nossos dias não serão mais como os que já foram.

A devolução tem um significado duplo. O livro sobreviveu ao horror das Alemanhas separadas. É como se ele ficasse imune aos erros da humanidade. Talvez ele tenha sido o que todo livro se propõe a ser. A devolução também mostra a resiliência da mulher. Ela sobreviveu à separação – e quis deixar isso registrado.

Não é à toa que o presidente Bolsonaro tem horror a bibliotecas. São espaços de resistência. Livros mostram aquilo que sobreviveu ao passado, indicam caminhos para um futuro melhor, alertam para futuros indesejáveis. Somos humanos porque temos a capacidade de contar e recontar histórias. Bibliotecas seriam, então, um símbolo máximo da nossa humanidade. 

Seguido do seu horror a bibliotecas, Bolsonaro também deu continuidade à sua empreitada golpista. “Sabemos o que devemos fazer antes das eleições.” Segundo Bolsonaro, “ninguém quer invadir nada”, como fizeram os terroristas no Capitólio. Mas seus eleitores sabem como se preparar, segundo o presidente. Operando por meias-palavras, por subentendidos, por mentiras e pós-verdades, o presidente e seu governo vão destruindo nossas instituições e desmanchando nosso tecido social. Ele percebe que deverá sair como perdedor do processo eleitoral e tenta antecipar o caos, que o beneficia.

Militares continuam com o projeto de monitoramento paralelo do processo eleitoral. Um absurdo que deveria ter sido cortado pela raiz quando começou. Ou melhor, que nunca deveria ter começado. Militares não devem ter espaço no processo eleitoral a não ser como eleitores. Eleições democráticas são civis em sua essência. Ainda mais num país cuja história é manchada pelo autoritarismo militar.

Em um caso extremo de polarização, um apoiador de Bolsonaro assassinou um dirigente petista aos gritos de “aqui é Bolsonaro”. Poucos dias depois, um dos filhos do presidente, o deputado federal Eduardo Bolsonaro, comemorou seu aniversário com um bolo com desenho de uma pistola 38. A proximidade temporal e o discurso intolerante relacionam os dois fatos. Bolsonaro ligou para a família da vítima para dizer que a esquerda estava “politizando” o ocorrido. São dias difíceis para o Brasil. 

* PROFESSORA DO INSPER, PH.D. EM ECONOMIA PELA UNIVERSIDADE DE NOVA YORK EM STONY BROOK

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