Mikhail Klimentyev/Sputnik via AFP
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Laura Karpuska
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Não está claro se sanções podem ajudar o mundo a se livrar do governo Putin

Presidente russo é tudo aquilo que ele aparentava ser, e agora, vemos seu pior. Isso lembra mais alguma história?

Laura Karpuska*, O Estado de S.Paulo

11 de março de 2022 | 04h00

O desastre humanitário causado pela investida imperialista da Rússia é marcante. O medo de uma tragédia nuclear e a tentativa de evitar uma guerra na Europa fizeram com que países europeus e os Estados Unidos usassem as sanções econômicas como alternativa a um conflito armado direto. De fato, a Rússia está sofrendo punições econômicas nunca vistas. 

Sanções funcionam? As evidências são poucas e apontam para todos os lados. As sanções a Cuba e Venezuela fracassaram, se a intenção era alterar o equilíbrio político. No caso da Líbia, as sanções podem ter ajudado a evitar a aceleração do programa de armas de destruição em massa no começo dos anos 2000. E por que algumas sanções funcionam e outras não?

A teoria econômica pode nos ajudar a entender sob quais condições sanções podem ser efetivas. Primeiro, as ações precisam ter objetivos claros. Segundo, as sanções precisam atacar mais diretamente um grupo específico da sociedade: os membros da coalização que sustenta um governante. Para desestabilizar um governo, portanto, é preciso atingir sua base de apoio. 

Não é claro se as sanções contra a Rússia serão eficientes, seja porque o objetivo parece difuso (quer se acabar com a guerra ou destituir Putin?), seja porque não está claro que as bases de apoio de Putin estão sofrendo mais do que o povo russo. 

Claramente as sanções incomodaram o Kremlin. Putin disse que as sanções são equivalentes a uma declaração de guerra. O povo russo está sofrendo com as restrições impostas ao sistema financeiro russo. Incômodo popular crescente é um problema para qualquer governante, democrático ou não.

Em um ambiente global que vai na contramão do respeito à soberania das nações, é importante ponderar se sanções econômicas impostas à Rússia conseguirão enfraquecer o governo Putin mais do que vão inflamar o ressentimento popular russo contra o Ocidente e exacerbar ainda mais um nocivo nacionalismo. No final desta semana, a Rússia disse que as negociações com a Ucrânia avançaram. Houve certo ânimo nos mercados, que atribuem este avanço às sanções. É preciso esperar para ver. 

A crise financeira de 2008, a pandemia, o aumento da desigualdade já vieram marcando o aumento do de um populismo nacionalista em diversos países – no Brasil, inclusive. Não está claro se sanções podem ajudar o mundo a se livrar do governo Putin. O que está claro é que é importante ser intolerante com intolerantes. O mundo tolerou as investidas autocráticas de Putin por muito tempo. Ele é tudo aquilo que ele aparentava ser. Agora, vemos seu pior. Isso lembra mais alguma história? 

*PROFESSORA DO INSPER, PH.D. EM ECONOMIA PELA UNIVERSIDADE DE NOVA YORK EM STONY BROOK

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