MARCIO FERNANDES|ESTADÃO
MARCIO FERNANDES|ESTADÃO

‘Lava Jato muda os negócios no Brasil’

Operação policial e troca de governo extinguem modelo de ‘campeões nacionais’ e trazem de volta a livre concorrência

Entrevista com

Otávio Castello Branco

Alexa Salomão, Impresso

15 de janeiro de 2017 | 05h00

Para Otávio Castello Branco, sócio do Pátria Investimentos para a área de infraestrutura, o Brasil precisa se orgulhar da sua “maturidade”. Fazendo o balanço de 2016, ele é categórico: “Poucos países teriam atravessado a crise que atravessamos com uma gestão tão exemplar”. Olhando para 2017, está esperançoso. “Com o novo governo e com a Lava Jato, houve uma mudança estrutural positiva na forma de se fazer negócios no Brasil: a competição se dará em bases transparentes e justas. De mercado”, diz.

Sócio da americana Blackstone, a maior empresa global de fundos voltados a empresas, o chamado private equity, o Pátria faz hoje a gestão de US$10 bilhões e tem mais de US$ 4 bilhões para novos aportes – que Castello Branco acredita que serão feitos este ano. O Pátria já avaliou até ativos de empresas investigadas na Lava Jato. “Há potenciais riscos associados que ainda não estão claros. Não sabemos como vão se dar os tais acordos de leniência. É um mundo novo para os negócios”, diz ele. A seguir, os principais trechos da entrevista que deu ao Estado.

Em retrospecto, 2016 foi um ano muito difícil...

O ano que não terminou.

Que lição ele deixou?

Ninguém está preparado para situação igual a que a gente viveu. Passamos pelo impeachment, num ambiente político delicado, com a entrada do vice-presidente, a montagem de um novo gabinete de ministros. A Lava Jato atravessou o ano criando notícias. A gente acordava sem saber o que vinha pela frente. Afora o cenário externo, com Brexit, eleição de Trump. Muita gente não se deu conta: no meio disso tudo, tivemos mudanças fundamentais positivas.

Que mudanças positivas?

Na nossa visão, a democracia sobreviveu. Se a gente der um passo atrás e observar, vai ver que os mecanismos que a sociedade têm para cobrar resultados e impor limites funcionaram. Olhe o tamanho do caso de corrupção que enfrentamos, o número de pessoas poderosas que estão sendo processadas, tanto no meio empresarial quanto no político. E ainda assim a imprensa livre exerceu o seu papel. A sociedade exerceu o seu papel de forma pacífica. O Judiciário teve um protagonismo forte e vimos conflitos e atuações previstos na Constituição, com um poder checando e ajudando a gerir o outro. O mercado e os investidores perceberam isso. Olham pelo mundo e veem que poucos países teriam atravessado a crise que atravessamos com uma gestão tão exemplar.

Mas esse ambiente instável não preocupa os investidores?

No começo, preocupava. Não tinham a dimensão do alcance do caso, nem de como a sociedade reagiria. À medida que o País agiu na forma da lei, houve uma inversão. A percepção é que o Brasil foi maduro. A ficha vai caindo devagar, mas o positivo é que, com o novo governo e com a Lava Jato, houve uma mudança estrutural positiva na forma de se fazer negócios no Brasil.

Mas não vimos isso se traduzir em investimentos concretos.

Ainda estamos no começo do processo. Vivemos a transição. Saímos de um modelo pró-Estado, intervencionista, com subsídios, dirigista na escolha de campeões nacionais, com a presença maior de bancos públicos. Agora, estamos passando para o modelo pró-mercado, onde o Estado tem o papel de regular, dar diretrizes, não intervir, não participar, deixar isso para o setor privado. Essa mudança, que terá um efeito perene, de longo prazo, demora para ser incorporada. A confiança não voltou totalmente, mas ela está voltando. Temos de dar um desconto para o governo, que teve o trabalho de arrumar a casa. Mas o que foi feito, teve resultado. Tivemos leilões de linha de transmissão e a privatização da Celg (Companhia Energética de Goiás) com participação forte dos investidores. É o início da retomada.

Qual o cenário de vocês para investimentos em infraestrutura?

Vai depender das decisões do governo na área, mas finalmente estão olhando a infraestrutura como se deve. O investimento de infraestrutura é um motor muito forte de retomada de crescimento. No curto prazo, tem efeito sobre a demanda – de cimento, de ferro, de aço, dos materiais que envolvem grandes obras. No longo prazo, permite maior produtividade na economia, na medida em que se oferece mais qualidade para a oferta de energia, transporte, logística, saneamento. Numa economia de baixo crescimento, como a nossa, esse efeito multiplicador tende a ser até maior.

E já dá para prever o cenário?

O ano de 2017 vai ser de implementação do modelo pró-mercado, o modelo mais racional. Já estão previstos mais leilões de linhas de transmissão, a retomada de leilões de geração, a privatização de aeroportos, a venda de ativos de estatais, a concessão de rodovias estaduais e federais. Já há um cronograma em discussão, datas estão sendo marcadas. A viabilidade ambiental de alguns projetos já é conhecida antes do leilão, para que não haja surpresas depois. Esse planejamento é muito importante. Os investidores estão se organizando. Eu acredito que vamos ter boas surpresas.

Nos últimos anos, as construtoras brasileiras foram protagonistas nas concessões. Dada a situação atual delas, tende a ocorrer uma mudança no perfil do investidor nessa área?

Com certeza. Um modelo faliu. O modelo de associação entre estatais e grupos da construção, as empreiteiras, muitas vezes com conflito de interesse, porque em vários casos elas estavam interessadas na obra, e não na operação da concessão. Nesse modelo, os objetivos de retorno eram diferentes dos do capital privado, havia um alto grau de alavancagem, muito subsídio e a regulação forçando o que chamamos de falsa modicidade tarifária. Isso sem falar na falta de transparência e nos casos de corrupção que fomos vendo. Esses elementos faziam com que investidores financeiros, interessados em participar de forma transparente e em operar as concessões, se afastassem. O novo modelo traz uma mudança estrutural. É o fim dos oligopólios. Algumas dessas empresas vão sobreviver e até retomar. Mas de outro jeito. O governo está dando racionalidade e transparência aos leilões públicos. Tudo indica que será menor a participação do Estado, até por limitações fiscais, e também será menor a participação do banco público e do subsídio. Sem os oligopólios, portanto, a competição se dará em bases transparentes e justas. De mercado. Os investidores, assim, vão voltar.

Vocês avaliaram essas concessões, boa parte delas de empresas investigadas na Lava Jato?

Nós somos investidores em infraestrutura. Não é comum encontrar investidores preparados para criar infraestrutura nova, mas a nossa vocação é essa. A gente fez um grande investimento em hidrovias. Estamos investindo sozinhos em linhas de transmissão. Mas, dentro do nosso mandato, também compramos empresas. Olhamos essas. Posso dizer que não é fácil, por diversas razões. Algumas delas estão em pré ou em recuperação judicial. Só isso seria complexo. Mas várias estão na Lava Jato. Há potenciais riscos associados: indenizações e responsabilidades que ainda não estão claras. Não sabemos como vão se dar os tais acordos de leniência. É muito difícil comprar o ativo de uma empresa envolvida em irregularidades e arriscar se tornar herdeiro disso. Tanto é assim que várias já anunciaram que estão vendendo ativos, mas poucos negócios saíram. Mas, de um jeito ou de outro, vai ter um desfecho, seja pela MP (medida provisória elaborada pelo governo para destravar concessões hoje com problemas), que criou as condições para isso, seja porque os credores se entenderam na recuperação judicial, seja porque os acordos de leniência foram divulgados. A leniência é um mundo novo nos negócios. Um tema a conhecer.

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