Lavagna diz que Brasil faz tempestade em copo d´água

Representantes dos governos do Brasil e da Argentina reúnem-se hoje para tentar deter a escalada de conflitos que promete reeditar a guerra comercial que confrontou os dois países em 1999. Ontem, na véspera do encontro, o ministro da Economia, Roberto Lavagna, negou a existência de um embate, afirmando que o Brasil está fazendo tempestade em um copo d´água por instrumentos comerciais que são aceitos pela Organização Mundial do Comércio (OMC). No meio da "Guerra das Geladeiras", como foi batizada ironicamente a disputa comercial que envolve os eletrodomésticos, chegará a Buenos Aires o secretário-geral do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior do Brasil, Márcio Fortes, acompanhado por um grupo de empresários do setor. Fortes se reunirá com o secretário de Indústria da Argentina, Alberto Dumont. O clima tenso na capital argentina aumenta com as sombrias previsões empresariais de que a reunião hoje entre Dumont e Fortes tem muitos ingredientes negativos que a levariam ao fracasso. Manfredo Arheit, presidente da Associação de Industriais Metalúrgicos da Argentina (Adimra), que reúne os principais fabricantes de eletrodomésticos do país, considera que as chances de que os dois países fechem um acordo são escassas. "Nenhum dos dois lados vai ceder." A Admira publicou ontem um comunicado nos principais jornais do país sustentando que as assimetrias macroeconômicas com o Brasil "não permitem o desenvolvimento harmônico e equilibrado" da indústria argentina. Os empresários argentinos afirmam que o conflito pode ser negociado. No entanto, exigem a aplicação de cotas que restrinjam a entrada de eletrodomésticos fabricados no território brasileiro. ConflitoO protagonista do conflito é a venda de eletrodomésticos "made in Brazil para o mercado argentino, que o governo do presidente Néstor Kirchner pretende restringir. Lavagna espera suspender as medidas de restrição contra os eletrodomésticos "da mesma forma como já aconteceu com os têxteis após o acordo entre os setores privados". O ministro também sustentou que o governo não está analisando aplicar novas barreiras contra outros produtos brasileiros. No entanto, em mensagem direta ao Brasil, ressaltou que se houver um "desvio" no comércio bilateral "por causa de subsídios internos", é preciso "fazer correções". Lavagna relativizou a aplicação de licenças não automáticas para os eletrodomésticos brasileiros, afirmando que no Brasil existe uma portaria que permite que mais de três mil produtos adotem essas licenças. Ele citou o próprio presidente Luiz Inácio Lula da Silva para minimizar a crise com o Brasil: "Temos questões comerciais para discutir com os países que são importantes para nós." No entanto, apesar dos panos quentes de Lavagna, a guerra está se espalhando rapidamente para outros setores, que também exigem mais proteção contra a suposta invasão de produtos brasileiros, como os têxteis, suínos, calçados, móveis e máquinas agrícolas. Reflexos do conflitoLavagna alertou ainda para o risco de que os empresários argentinos aproveitem a redução drástica da concorrência de eletrodomésticos brasileiros para aumentar os preços dos produtos no mercado interno. "Não vou dar permissão de corsário para setor algum", disparou o ministro, que deixou claro que não tolerará aumentos.A "Guerra das Geladeiras" está causando um efeito dominó, já que diversos setores empresariais argentinos não querem perder a chance de conseguir vantagens alfandegárias ou fiscais. Esse é o caso das fábricas de máquinas agrícolas, que também alegam que está ocorrendo uma invasão brasileira. Segundo o setor, as máquinas brasileiras já ocupam 80% do mercado argentino. Outro setor que está pintando o rosto com as cores de guerra é o de suínos. Os empresários reunidos na Associação de Produtores de Suínos (AAPP) dizem que estão sendo colocados em xeque por causa dos baixos preços dos produtos importados do Brasil.

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