Lavagna faz duras críticas ao FMI

O ministro de Economia da Argentina, Roberto Lavagna, criticou duramente o Fundo Monetário Internacional. Durante entrevista aos correspondentes estrangeiros em Buenos Aires, nesta manhã, Lavagna acusou o FMI de ter "uma percepção equivocada sobre a realidade argentina". Segundo ele, o "Fundo tem dificuldades para atualizar sua percepção sobre a situação" do país e citou como exemplo os prognósticos feitos em abril e maio deste ano, de que a Argentina estaria à beira de um colapso do sistema financeiro e à beira da hiperinflação. ?A realidade mostrou que estavam errados". Para ele, a diretoria do FMI utiliza argumentos ou desculpas de falta de consenso político para não fechar o acordo. Porém, o real motivo para a demora das negociações, que duram quase 10 meses, é o fato de o fundo não querer assumir que errou. ?A burocracia, ou tecno-estrutura, como eles acham mais elegante, considera uma carga ter que assumir o equívoco" em suas projeções e atitudes, afirmou. "O último acordo do FMI com a Argentina só serviu para financiar a fuga de capitais e aprofundar a recessão que terminou no colapso de 2001", disse o ministro, completando que ?a primeira responsabilidade" pela crise argentina foi do próprio país. ?Mas durante todos estes anos (a partir de 1994), com certa cegueira, os organismos internacionais continuaram a apoiar o modelo que conduziu à quebra da Argentina", acusou. Segundo o ministro, se o FMI não chegar a um acordo com a Argentina, "cada qual deverá assumir suas responsabilidades". Perguntando se a frase era uma espécie de ameaça ou alerta sobre a culpa do FMI por uma consequência mais grave para a Argentina, Lavagna foi lacônico e disse que os jornalistas deveriam interpretá-la de acordo com a inteligência de cada um.O ministro confirmou que o governo pagará os vencimentos de setembro, de pouco mais de US$ 300 milhões, com as reservas internacionais. Porém, as dívidas que vencerão no dia 9 de outubro com o Banco Mundial, de US$ 800 milhões, não serão quitadas da mesma forma. "Se não houver um acordo, de qualquer jeito a Argentina honrará seus compromissos com os organismos, como sempre fez, mas há dúvidas sobre como e quando", disse Lavagna, dando a entender que o governo poderá optar por não continuar a usar suas reservas. Ele informou que, enquanto não sai o acordo com o FMI, o governo usará a norma administrativa dos organismos internacionais, que permite um atraso de 30 dias após o vencimento das dívidas, para o pagamento das mesmas. Ou seja, as dívidas de outubro passariam para novembro, e assim sucessivamente.Lavagna esclareceu que sua viagem para Washington, que se iniciará amanhã, não será para negociar com o FMI. Ele aproveitará a Assembléia Anual do organismo e do Banco Mundial para manter conversas bilaterais com os representantes do Fundo. Seu objetivo é o de mostrar os números, dados e informações para "mudar esta percepção equivocada sobre a Argentina". Ele diz que, dentre os fatos positivos que serão apontados, alguns já foram informados pelo presidente Eduardo Duhalde ao diretor-gerente do FMI, Horst Köhler. ?A inflação hoje está abaixo de 2%, quando em abril se encontrava em 10,4%; de abril a agosto a indústria cresceu 6,7%; o Banco Central deixou de perder reservas no mercado cambial e tem aumentado as reservas em mais de US$ 114 milhões de dólares; as taxas de juros que há quatro meses estavam em 200% hoje estão entre 30 a 40%; o dólar futuro para os contratos até o final do ano não passam de 3,80 pesos, ante uma projeção de 8 a 10 pesos em abril; em quatro meses, o país teve superávit primário; pela primeira vez, desde 89, o PIB do segundo trimestre é positivo em 0,9%, comparando com o trimestre anterior".Para Lavagna, o Fundo Monetário projetou um cenário muito negativo para a Argentina há quatro meses, e agora, como nada se confirmou, o organismo não atualizou este cenário traçado. Apesar de destacar os "indicadores positivos" do país, sem ajuda internacional, o ministro ressaltou que, com o acordo com o FMI, "a recuperação da Argentina seria mais fácil". Porém, Lavagna explicou que o país não aceitaria um acordo que não privilegie, por exemplo, os planos sociais que, segundo ele, já reduziram o número de pessoas abaixo da linha de pobreza de 8,6 milhões para 5,6 milhões de habitantes em apenas quatro meses.

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