Lehman morreu para Wall Street sobreviver

O que aconteceria se eles tivessem salvado o Lehman Brothers? E se o governo e a indústria bancária tivessem, um ano atrás, encontrado alguma maneira de impedir que o Lehman pedisse concordata? Como isso teria mudado o curso da crise financeira? Sabemos o que aconteceu de fato. É algo gravado em nossa memória.

Joe Nocera*, O Estadao de S.Paulo

13 de setembro de 2009 | 00h00

Na segunda feira, 15 de setembro de 2008, quando espalhou-se a notícia de que, apesar dos esforços incessantes daquele fim de semana, não haveria alívio de última hora para o Lehman, diferente do que houve com o Bear Sterns, instaurou-se o pandemônio. O mercado de ações despencou.

O Reserve Primary Fund, um fundo do mercado monetário que era dono dos títulos da dívida do Lehman, viu o valor de seus ativos cair para abaixo da quantia depositada em unidades de um dólar. Pouco depois, a seguradora American International Group (AIG) quase entrou em colapso, e teve de ser resgatada com um empréstimo extraordinário de US$ 85 bilhões cedido pelo governo. Surgiram rumores de que o Morgan Stanley seria o próximo. Havia até temores em relação à estabilidade do poderoso Goldman Sachs.

Desde aquele fim de semana, a maioria das pessoas (na qual me incluo) enxergaram a decisão tomada por Henry Paulson Jr., na época secretário do Tesouro, e Ben Bernanke, presidente do Federal Reserve (banco central americano) de permitir que o Lehman falisse como o maior de todos os erros no combate à crise.

Christine Lagarde, a ministra francesa das Finanças, por exemplo, classificou a decisão de "horrenda" e de "erro crasso". De acordo com David Wessel, autor de um livro sobre a crise, In Fed we trust, o presidente do Banco Central Europeu, Jean-Claude Trichet, fez comentários parecidos em particular. Ele cita um dos assessores de Trichet, que teria dito: "Nunca poderíamos imaginar que os americanos deixariam o Lehman quebrar".

Em discursos e ensaios, em livros e na televisão, comentaristas de todo o espectro político apontaram para a falência do Lehman como sendo o acontecimento que transformou a crise do subprime num colapso financeiro completo.

No entanto, ao nos aproximamos do aniversário do evento, comecei a duvidar desse senso comum. É verdade que a quebra do Lehman detonou um pânico contagioso. E ainda estou convencido de que Paulson e Bernanke poderiam ter encontrado uma forma de salvar o Lehman se assim desejassem. Mas me convenci de que, se o Lehman fosse salvo, o colapso teria ocorrido mesmo assim.

John H. Makin, professor convidado no American Enterprise Institute, escreveu recentemente: "Se a falência do Lehman não tivesse detonado a fase de pânico, outra falência institucional o teria feito".

Eu dou um passo além: é muito provável que a crise financeira fosse ainda pior se o Lehman tivesse sido resgatado. Apesar de ninguém ter percebido na época, o Lehman Brothers teve de morrer para que o restante de Wall Street sobrevivesse.

Nos meses entre Bear Stearns e Lehman Brothers, Paulson e Bernanke haviam contatado líderes do Congresso sobre a necessidade de aprovar uma legislação que lhes daria ferramentas para lidar com uma crise maior, se ela viesse. Mas eles perceberam que não havia vontade política para que alguma coisa fosse feita.

Após o Lehman, porém, Paulson e Bernanke conseguiram persuadir o Congresso a aprovar uma lei que concedeu ao Departamento do Tesouro US$ 700 bilhões. Mesmo assim, não foi fácil. Foram necessárias duas tentativas na Câmara para aprovar a lei. Sem a crise provocada pela quebra do Lehman, teria sido impossível aprovar uma legislação como essa.

Essa é uma razão porque a inadimplência do Lehman acabou sendo uma coisa boa. Eis uma outra: se o Lehman tivesse sido vendido ao Bank of America, como fora planejado, alguma outra empresa teria falido em seu lugar. Àquela altura, havia pânico demais no ar.

Paulson, não custa lembrar, queria que Wall Street arranjasse sua própria solução para salvar o Lehman. Mas os diretores executivos sentados em torno da grande mesa de conferências do Fed de Nova York durante todo o fim de semana continuavam preocupados com o que viria em seguida. Eles indagavam abertamente se o Merrill Lynch poderia durar muito mais. (Paulson disse francamente a John Thain, diretor executivo do Merrill, que ele precisava encontrar um comprador, e foi por isso que o Bank of America virou sua atenção para o Merrill e deixou o Lehman de lado.) E havia rumores de que a AIG estava em dificuldades. Por que eles estavam tão relutantes em salvar o Lehman? Temiam ser os próximos.

Na verdade, uma inadimplência do Merrill e da AIG teria criado algo parecido como uma bomba nuclear financeira - muito pior que um pedido de concordata do Lehman. O Merrill era uma empresa muito maior, com raízes mais fundas na economia real. A AIG era a maior companhia de seguros do mundo, cujas garantias contra calotes estavam escorando metade dos bancos da Europa. O Lehman era uma empresa menor, praticamente sem vínculos com a economia real.

Quase todos com quem falei no velho Departamento do Tesouro de Paulson concordam que sem o pânico causado pela inadimplência do Lehman, o governo jamais teria concordado em fazer os empréstimos necessários para salvar a AIG.

Olhando retrospectivamente, se tivéssemos que escolher uma empresa para atirar embaixo do ônibus para salvar as demais, nós escolheríamos o Lehman.

Seria ótimo poder dizer que as autoridades do Tesouro e do Fed compreenderam isso na época. Mas elas certamente não compreenderam. Ao longo da história, pessoas passaram por crises sem compreender completamente as consequências potenciais de seus atos, esperando que as escolhas que fizeram fossem as corretas.

Bernanke é um conhecido estudioso da Grande Depressão, o que orientou muitas de suas ações durante a crise. Paulson mostrou uma tecnicidade imensa quando a crise se abateu. A história, eu agora acredito, elogiará seus esforços para impedir o colapso. Mas e a inadimplência do Lehman? Vocês conhecem o velho ditado: às vezes, é melhor ter sorte do que ser bom. Um desses momentos faz seu primeiro aniversário esta semana.

*Joe Nocera é colunista

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