Leiam os lábios da China

País não está mais disposto a arriscar sua estabilidade com base em promessas ocas e uma administração econômica capenga de Washington

Stephen S. Roach, do Project Syndicate, O Estado de S.Paulo

29 de julho de 2011 | 00h00

Os chineses admiram de longa data o dinamismo econômico dos Estados Unidos. Mas eles perderam a confiança no governo americano e na sua gestão disfuncional da economia. Essa mensagem chegou até mim nitidamente nas recentes viagens que fiz a Pequim, Xangai, Chongqing e Hong Kong.

Surgindo nos calcanhares da crise do subprime, o debate sobre o teto da dívida e o déficit orçamentário foi a gota d"água. Autoridades chinesas de alto escalão estão estarrecidas com a maneira como os Estados Unidos permitem que a política se sobreponha à estabilidade financeira.

A China não é uma espectadora inocente da corrida dos EUA para o abismo. Depois da crise financeira asiática dos anos 90, a China amealhou cerca de US$ 3,2 trilhões de reservas em moedas estrangeiras para isolar seu sistema de choques externos. Dois terços desse total - em torno de US$ 2 trilhões - estão investidos em ativos baseados em dólares, em grande parte Treasuries (letras do Tesouro) americanos e papéis de agências (isto é, Fannie Mae e Freddie Mac). Com isso, no fim de 2008 a China ultrapassou o Japão como o maior detentor de ativos financeiros americanos.

Não só a China se sentiu segura para fazer uma aposta tão alta nos componentes antes relativamente sem risco da moeda de reserva mundial, como sua política cambial lhe deixou pouca escolha. Para manter uma relação estreita entre o yuan e o dólar, a China teve que reciclar uma parte desproporcional de suas reservas cambiais em ativos baseados em dólares.

Esses tempos acabaram. A China reconhece que já não faz sentido manter sua estratégia atual de crescimento - uma estratégia que depende de uma combinação de exportações e um volumoso colchão de reservas cambiais denominadas em dólares. Três desdobramentos principais levaram a liderança chinesa a essa conclusão. Primeiro, a crise e a grande recessão de 2008-2009 foram um grito de alerta. Embora as indústrias exportadoras chinesas continuem competitivas, há dúvidas compreensíveis sobre o estado da demanda estrangeira pós-crise para produtos chineses. Dos EUA à Europa e ao Japão - economias desenvolvidas castigadas pela crise que respondem coletivamente por mais de 40% das exportações chinesas -, a demanda na ponta do mercado provavelmente vai crescer num ritmo mais lento nos próximos anos do que cresceu durante o boom nas exportações chinesas dos últimos 30 anos.

Desde há muito o mais poderoso motor do crescimento chinês, há agora uma considerável desvantagem num avanço puxado pelas exportações.

Segundo, os custos do prêmio do seguro - o reservatório descomunal em grande parte denominado em dólares das reservas cambiais da China - foram aumentados pelo risco político. Com o pagamento da dívida do governo americano atualmente em questão, o próprio conceito de ativos baseados em dólar sem risco é duvidoso.

Nos últimos anos, o primeiro-ministro chinês, Wen Jiabao, e o presidente, Hu Jintao, manifestaram repetidamente preocupação com a política fiscal americana e a condição de porto seguro dos Treasuries. Como a maioria dos americanos, os líderes chineses acreditam que os EUA acabarão se esquivando de um completo default. Mas não é essa a questão.

Existe agora um grande ceticismo com a substância de qualquer "correção" - especialmente em uma que se apoia em fumaça e espelhos para adiar um ajuste fiscal significativo.

Tudo isso sugere danos duradouros para a credibilidade do compromisso de Washington com o "plena fé e crédito" do governo americano. E isso coloca sérias dúvidas sobre a sabedoria dos investimentos maciços da China em ativos denominados em dólares.

Por último, a liderança da China está consciente dos riscos implícitos em seus próprios desequilíbrios macroeconômicos - e do papel que seu crescimento puxado pelas exportações e a acumulação cambial baseada em dólares joga na perpetuação desses desequilíbrios. Ademais, os chineses compreendem a pressão política que um mundo desenvolvido carente de crescimento está exercendo sobre sua rígida administração cambial do yuan ante o dólar - pressão que lembra muito uma campanha similar dirigida para o Japão em meados da década de 80.

Entretanto, diferentemente do Japão, a China não atenderá aos apelos para uma forte valorização única do yuan. Ao mesmo tempo, ela reconhece a necessidade de enfrentar essas tensões geopolíticas. Mas a China o fará dando estímulo à demanda interna, reduzindo com isso a dependência de ativos baseados em dólares.

Com essas considerações em mente, a China adotou uma resposta muito transparente. Seu novo 12.º Plano Quinquenal diz tudo - uma guinada para o consumo na estrutura econômica da China que encare de frente os insustentáveis desequilíbrios do país. Com o foco em criação de emprego em serviços, urbanização maciça e ampliação da rede de segurança social, haverá um grande aumento da renda do trabalho e do poder de compra do consumidor. Por conseguinte, a participação do consumo na economia poderá aumentar em pelo menos cinco pontos porcentuais do Produto Interno Bruto até 2015.

Um reequilíbrio puxado pelo consumo enfrenta muitas das tensões observadas acima. Ele distancia o crescimento econômico de uma perigosa dependência excessiva da demanda externa, enquanto desloca apoio para uma demanda interna pouco explorada. De mais a mais, reduz a importância de uma moeda subvalorizada como sustentáculo do crescimento das exportações, dando à China uma margem considerável para aumentar o ritmo das reformas correntes.

Mas, ao aumentar a proporção do consumo no seu PIB, a China também absorverá boa parte de sua poupança excedente.

A medida poderá equilibrar sua conta corrente - ou mesmo criar um pequeno déficit - até 2015. Isso reduzirá fortemente o ritmo da acumulação de moedas estrangeiras e reduzirá a demanda irrestrita da China por ativos denominados em dólar.

Portanto, a China, maior compradora estrangeira de títulos do governo americano, em breve dirá, "basta". No entanto, um novo acordo orçamentário vazio, em combinação com um crescimento mais fraco que o esperado da economia americana nos próximos anos, sugere um período prolongado de déficits públicos descomunais. Isso coloca a maior questão de todas: na falta da demanda chinesa para os Treasuries, como uma economia americana carente de poupança se financiará sem sofrer um forte declínio no dólar e/ou um grande aumento das taxas de juros reais de longo prazo? A resposta arrogante ouvida de pessoas influentes em Washington é que os chineses não ousariam provocar semelhante desfecho. Afinal, onde mais eles colocariam seus ativos? Por que se arriscariam a prejuízos com seu portfólio maciço de ativos baseados em dólares? As respostas da China a essas perguntas são claras: ela não está mais disposta a arriscar a estabilidade financeira e econômica com base em promessas ocas e uma administração econômica capenga de Washington. Os chineses estão finalmente dizendo não. Leiam seus lábios. / TRADUÇÃO CELSO PACIORNIK

É MEMBRO DO CORPO DOCENTE DA UNIVERSIDADE YALE E PRESIDENTE NÃO EXECUTIVO DO MORGAN STANLEY ASIA

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