Leilão da Itália fracassa e BCE intervém

Taxa de juros paga na emissão de títulos de longo prazo ficou perto de 7% e Mario Monti só consegue captar 7 bilhões dos 8,5 bilhões pretendidos

JAMIL CHADE, CORRESPONDENTE / GENEBRA , O Estado de S.Paulo

30 de dezembro de 2011 | 03h06

A Europa termina 2011 como começou: sem convencer os mercados de que poderá superar a crise da dívida, mesmo depois de ver a queda de governos, congelar salários e proliferar pacotes e promessas de austeridade.

A Itália não conseguiu ontem os resultados que esperava na emissão de papéis da dívida de longo prazo e os empréstimos privados no continente sofreram queda importante. O euro, como resultado, desabou para seu nível mais baixo em 15 meses, a Hungria foi praticamente cortada do mercado de créditos e investidores insistem que governos ainda terão de provar que as reformas prometidas serão cumpridas.

O Banco Central Europeu (BCE) começou o dia revelando que os empréstimos privados na União Europeia sofreram a maior queda em um ano no mês de novembro, um indicador de que bancos temem calotes e falências. Mesmo com a injeção de meio trilhão de euros nos bancos e a redução da taxa de juros para o menor nível da história, o BCE não reverteu a desconfiança do mercado. Empréstimos para bancos, consumidores e empresas caíram, fortalecendo o temor de que a Europa aprofundará sua recessão em 2012. Na Hungria, o governo sequer conseguiu captar recursos no mercado ao tentar fazer uma emissão.

Mas foi da Itália que veio o principal alerta. O governo de Mario Monti havia conseguido reduzir os juros cobrados por investidores na emissão de títulos de curto prazo na quarta-feira. Mas, ontem, ao emitir papéis com vencimentos de longo prazo, o resultado não foi o mesmo. Com isso, o BCE foi obrigado a intervir e comprar título da dívida italiana para reduzir a pressão do mercado sobre Roma.

O primeiro-ministro, apesar de tentar mostrar otimismo com o resultado da emissão e indicando que o risco país continua em queda, admitiu que a turbulência continuará em 2012. "Não consideramos que a turbulência acabou. Temos muito por fazer."

A meta de Monti era de captar 8,5 bilhões. Mas conseguiu apenas 7 bilhões. A taxa de juros que investidores exigiram foi menor que nas emissões de novembro, de 7,5%. Mas ainda ficou em um nível alarmante, de 6,98%. Grécia e Portugal tiveram de ser socorridas justamente quando suas emissões atingiram essa marca, considerada como insustentável.

O resultado da emissão foi a perda de terreno do euro, contado ontem a US$ 1,28, a menor taxa desde setembro de 2010. Em relação ao iene, o euro bateu mais um recorde de baixa e atingiu o menor nível em mais de dez anos. As bolsas acabaram em alta, por conta dos dados econômicos americanos. Mas não foi suficiente para conter as perdas totais ao longo de 2011 de 12%. "Investidores ainda estão esperando por mais avanços nas reformas", afirmou a HIS Global Insight. "Foi um leilão bem ruim", alertou Chris Walker, do UBS. "O resultado mostra que a pressão sobre a Itália é ainda enorme", alertou o Commerzbank.

Impacto. A Itália se transformou no maior teste da zona do euro e no espelho da crise da dívida. Não por acaso, Monti sabe de sua responsabilidade. "O destino da economia mundial depende da Itália. Porque o que fizermos aqui vai definir o futuro da zona do euro e a economia mundial depende do que ocorrer na Europa em 2012", admitiu Monti. A terceira maior economia do bloco acumula uma dívida de 1,9 trilhão e só em 2012 precisará captar no mercado 330 bilhões apenas para rolar sua dívida.

A opção de ser resgatada pela UE está praticamente descartada, já que não haveria fundos suficientes para isso. Mas um calote, para muitos, representaria um colapso na zona do euro e eventualmente o fim da moeda única. Monti, porém, admite que não tem como obter os 330 bilhões pagando juros de 7%. A única solução seria continuar mostrando aos mercados que as reformas vão de fato acontecer.

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