Felipe Mortara/ Estadão
Felipe Mortara/ Estadão

País deve entregar 10 parques e florestas à iniciativa privada em nova temporada de leilões

BNDES calcula pelo menos dez licitações de áreas verdes estatais que devem passar para a iniciativa privada até o 3.º trimestre

Renée Pereira, O Estado de S.Paulo

13 de março de 2022 | 05h00

Depois de rodovias, aeroportos e saneamento, o Brasil deve entrar numa nova onda de concessões voltadas ao setor ambiental. Beneficiadas pelo apelo ESG (sigla em inglês para práticas ambientais, sociais e de governança), as licitações envolvem parques e florestas espalhadas por todo o País. Só neste ano a expectativa é realizar dez leilões até o terceiro trimestre, segundo o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Mas o potencial é ainda maior.

A instituição calcula que haja 8,4 milhões de hectares de unidades de conservação que podem ser concedidos para a iniciativa privada – isso equivale ao tamanho da Áustria, diz o diretor de concessões e privatizações do banco, Fábio Abrahão. A área inclui parques e florestas naturais de Estados, municípios e governo federal. Alguns são viáveis economicamente, outros poderiam se tornar ferramentas interessantes na busca de empresas por maior sustentabilidade.

Por se tratar de um setor novo e com ativos menores comparados a rodovias e aeroportos, por exemplo, todo o sistema e a tecnologia precisavam ser desenvolvidos. Além disso, diz Abrahão, era importante criar escala e montar uma carteira consistente de projetos para expandir uma indústria que no Brasil ainda engatinha.

“As modelagens são menores e para gerar impacto tem de ter escala e ser padronizado”, diz Abrahão, que trabalha em cima dessas concessões há um ano e meio. Isso significava criar uma carteira de projetos interessante para atrair investidores. Outra preocupação foi desenvolver uma modelagem que trouxesse benefícios para o entorno dos parques ou florestas. Ou seja, definir exigências que promovam a interação com a população e melhorias nas comunidades locais.

“O mercado de parques no Brasil é muito pequeno e pode se desenvolver bastante se usarmos como exemplo países como Estados Unidos, Canadá e África do Sul, onde essa indústria movimenta muita gente e recursos”, diz Abrahão. A primeira concessão modelada pelo BNDES vai ocorrer dia 22 de março. Trata-se da licitação do Parque Nacional Foz do Iguaçu (RS), que tem como principal atração as Cataratas – considera uma das sete maravilhas da natureza. 

A área é administrada pelo Grupo Cataratas, mas o contrato já venceu. A nova concessão vai ampliar o espaço concedido e trazer novas exigências, como o investimento de 6% da receita em projetos socioambientais. O vencedor terá de investir R$ 504 milhões e aplicar outros R$ 3,6 bilhões na operação do parque durante a concessão.

Depois dessa concessão, outras estão prevista para o segundo e terceiro trimestres do ano, como os três parques no Rio Grande do Sul: Caracol, Tainhas e Turvo, além do Jardim Botânico. A carteira do BNDES inclui ainda o parque Dois Irmãos, em Pernambuco; o Zoológico de Salvador, parque Sete Passagens e Conduro, na Bahia; Ibitipoca e Itacolomi, em Minas Gerais. No total, o BNDES tem 50 projetos em elaboração.

Sustentabilidade

Na avaliação do sócio da BF Capital, Renato Sucupira, exemplos de sucesso de alguns leilões já realizados, como o do Ibirapuera, podem incentivar a entrada de investidores nessa nova leva licitações, composta por ativos interessantes e rentáveis. Na concessão de Foz do Iguaçu, por exemplo, ele acredita que a disputa deva ser acirrada.

Mas o executivo avalia que a carteira do BNDES inclui muitos parques e florestas não rentáveis, o que exigirá uma modelagem diferenciada para atrair investidores. Além disso, ele cita algumas áreas com vocação turísticas, como Lençóis Maranhenses, mas que teriam de superar desafios ligados ao tamanho do parque. “Como fazer entradas nessas áreas?”, questiona ele.

O diretor do BNDES destaca que, se bem feitas, essas concessões podem ser uma importante ferramenta para as empresas na prática de ESG. Ele explica que a carteira do banco tem tanto projetos autossuficientes como aqueles que não param de pé financeiramente. “Mas, mesmo nesses, temos investidores interessados em colocar dinheiro a fundo perdido.” 

São empresas que querem aliar suas marcas a esse tipo de ação ligada à sustentabilidade. Além disso, alguns fundos – internacionais – têm metas para investir em companhias com essas iniciativas. Outro motivo para colocar dinheiro nessas concessões, inicialmente sem atratividade econômica, está no avanço do mercado de carbono. Ter uma área degradada, que precisa ser recuperada e preservada, pode render créditos no futuro. Mas esses ativos só devem ser colocados na praça mais para frente. 

Interessadas

Vencedora de leilões passados, Live Park e Urbia estão avaliando todos os projetos em estruturação pelo BNDES. “Vemos com bons olhos esse processo e uma oportunidade desse patrimônio do País ganhar um ‘up grade’ de operação e proteção ambiental”, diz o presidente da empresa, Rogério Dezembro. Criada em 2020, a companhia faz parte do consórcio que acaba de vencer a concessão do Zoológico, Jardim Botânico e Zoo Safari de São Paulo, pelo período de 30 anos.

“Estamos acompanhando todo o processo e a carteira do BNDES e, com certeza, vamos participar, pelo menos, da metade das licitações”, diz o executivo, que já trabalhou no projeto do Allianz Park e Teatro Santander. Para isso, a empresa está conversando com outros possível parceiros para disputar os ativos.

Outro grupo interessado nos parques a serem licitados neste ano é a Urbia, empresa do grupo Construcap. Administradora do Parque do Ibirapuera e mais cinco parques em São Paulo, a concessionária venceu no mês passado a licitação do Horto Florestal de São Paulo e deve assumir a administração a partir de abril. A Urbia também tem a concessão do Parque Nacional de Aparados da Serra e da Serra Geral, no Rio Grande do Sul e Santa Catarina.

O diretor da empresa, Samuel Lloyd, diz que o foco da Urbia são negócios focados em turismo e visitação. “E, para isso, olhamos o País inteiro.” Com essas concessões, diz ele, é possível ampliar os horários de abertura dos parques, torná-los mais atrativos e convidativos aos turistas, como fazem muito bem outros países.

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