Gabriela Biló/Estadão
Gabriela Biló/Estadão

Leite derramado

Não falta motivo para chorar no banheiro, mas vale se inspirar no risco de greve dos caminhoneiros

Luís Eduardo Assis*, O Estado de S.Paulo

25 de outubro de 2021 | 04h00

Pequena conjectura: se você fosse o presidente da República e tivesse programado chorar escondido no banheiro hoje à noite, qual problema você escolheria para servir de inspiração? Com tanta coisa ruim, a escolha não é fácil. Quem sabe se desesperar com a debandada dos secretários de Paulo Guedes? Ou se lembrar da cena das pessoas buscando restos de comida em caminhão de lixo? Não faltam bons temas, mas para hoje, se a escolha tiver de ser em algo diferente, vale a pena se inspirar no risco de greve dos caminhoneiros.

Já aconteceu em 2018 e não chega a ser novidade. Em maio daquele o ano, o País parou e o presidente Temer teve de usar todas as suas mesóclises para sair de uma enrascada feia. O preço do diesel tinha subido quase 20% no acumulado dos 12 meses. O rendimento médio mensal dos trabalhadores por conta própria, em que se incluem os caminhoneiros, era equivalente ao preço de 440 litros de diesel. Hoje, a variação anual do preço do diesel está perto de 40% e o rendimento dos trabalhadores por conta própria em julho, último dado disponível, comprava apenas 407 litros do óleo. Em termos reais, deflacionado pelo IPCA, o diesel em setembro custava 8,8% mais do que na época da greve de 2018.

Nos momentos em que não se empenha em derrubar o teto de gastos, a Câmara federal aprovou em primeira votação a mudança na forma de incidência do ICMS, que passaria de um porcentual do preço a uma alíquota fixa em reais, reajustada anualmente. A estimativa é de que isso poderia reduzir o preço do diesel em algo como 3,7%, o que não chega a consolar ninguém. A proposta coloca os Estados na posição de um trader da Faria Lima. Com o ICMS atrelado ao preço da bomba, os secretários de Fazenda estão simultaneamente “comprados” em dólar e em petróleo. Ganharam bastante nessa posição, o que ajuda a explicar o forte aumento da arrecadação estadual nos últimos tempos. Mudar a metodologia agora equivale a travar essa posição vencedora, da mesma forma que um trader vende ações ou dólar depois de uma puxada nos preços. Como reza o jargão de mercado, lucro nunca deu prejuízo a ninguém.

Seja como for, o projeto de lei deve ser considerado inconstitucional e o risco de greve continua latente, até porque as últimas parvoíces do governo na tentativa de comprar votos para 2022 só fizeram aumentar a cotação do dólar, pressionando para cima o preço dos combustíveis e aumentando o risco de paralisação.

*É ECONOMISTA, FOI DIRETOR DE POLÍTICA MONETÁRIA DO BANCO CENTRAL E PROFESSOR DE ECONOMIA DA PUC-SP E DA FGV-SP

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