Lento, gradual e seguro

Cenário lembra o pós-crise na Argentina de 2001, quando a inflação caiu a 3% e houve crescimento significativo depois de um forte impacto nos preços por conta do câmbio

Sérgio Vale*, O Estado de S.Paulo

22 de fevereiro de 2017 | 22h24

Depois da surpresa da queda de 0,75 ponto porcentual em janeiro, o Banco Central não ousou novamente com uma queda mais forte, de 1 ponto. Havia certa expectativa, dado o cenário bastante benigno para a inflação.

De fato, é provável que na metade do ano o IPCA alcance menos de 4% no acumulado em 12 meses e sua aceleração no segundo semestre não deve levar o número fechado do ano para acima de 4,5%. As notícias de nível de atividade em lenta recuperação continuarão positivas para a inflação este ano. Lembra um pouco a saída da crise argentina de 2001, que após forte impacto inflacionário por conta do câmbio em 2002 conseguiu alcançar inflação em torno de 3% em 2003, com forte crescimento. A razão, em boa parte, era uma grande capacidade ociosa.

De forma semelhante, 2017 continuará vendo uma capacidade ociosa elevada, além de um câmbio apreciado e, pelo menos, preços de alimentos muito favoráveis ao longo de todo o primeiro semestre. Assim, até meados do ano, as notícias para a inflação seguirão permitindo ao BC baixar os juros em pelo menos 0,75 ponto em cada reunião.

O segundo semestre pode trazer outro componente para ajudar nessa trajetória. A reforma da Previdência será essencial para consolidar o novo regime fiscal e permitirá que o País entre em um ciclo permanente de juros de um dígito. Em junho, na reunião do CMN, estará mais claro se a reforma será aprovada ou não. Caso seja, e esse é nosso cenário, abre-se a expectativa de o BC baixar a meta de 2019 para 4% ou 4,25%.

Esse cenário terá o papel adicional de apreciar mais o câmbio, salvo alguma crise mais grave vinda de Trump e companhia. Com o fiscal consolidado, câmbio favorável e atividade ainda com baixo crescimento, poderemos ver a consolidação dos juros em um dígito sem risco inflacionário pela primeira vez na história do real. Mas isso é o começo de um processo que só se solidificará caso um presidente com racionalidade econômica vença ano que vem.

*Economista-chefe da MB Associados

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