André Dusek|Estadão
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Levy é o segundo ministro da Fazenda que menos durou no cargo em 21 anos

Esperança do mercado financeiro, 'chicago boy' deixa déficit primário e uma meta fiscal de 0,5% para 2016 após sofrer uma série de derrotas

Lorenna Rodrigues, O Estado de S.Paulo

18 de dezembro de 2015 | 19h25

BRASÍLIA - No dia 27 de novembro de 2014, quando foi apresentado como ministro da Fazenda do segundo governo Dilma Rousseff, Joaquim Levy adentrou o salão leste do Palácio do Planalto com um sorriso confiante de quem tinha o apoio irrestrito do mercado financeiro.

Falou naquele dia ao lado de Nelson Barbosa, que havia sido preterido para a Fazenda e indicado ao Planejamento. O "chicago boy" de formação ortodoxa era naquele momento tido como o fiador da política econômica. Levy era a esperança do mercado para dias melhores na economia depois de um processo eleitoral difícil, contas públicas maquiadas e déficit fiscal.

Quem reler seu discurso pouco mais de um ano depois achará, no mínimo, ambiciosas as metas ali traçadas. Fixou objetivos expressivos de superávit primário até 2017, para estabilizar e reduzir a dívida bruta. Comprometeu-se com um superavit primário de 1,2% em 2015 e "não menor" do que 2% nos dois anos seguintes. E disse que teria autonomia para tocar a política que defendia. 

"Evidentemente que quando uma equipe é escolhida é porque há confiança nela e eu não tenho indicação nenhuma em sentido contrário", afirmou, naquele dia.

Se Guido Mantega, seu antecessor, ficou conhecido como o ministro mais longevo, Levy poderá entrar para a história por seu "annus horribilis". Foi o que menos tempo durou no cargo desde Ciro Gomes, que ficou quatro meses no cargo, em 1994. Depois de enfrentar a resistência de políticos e o fogo amigo do governo, sairá deixando um déficit primário e uma meta de 0,5% para 2016, que só não foi zero porque o rebaixamento da nota de crédito do País veio antes.

Com Mantega, ainda no posto, no fim do ano passado, Levy ganhou um gabinete no Palácio do Planalto antes mesmo de assumir o cargo de ministro e, ali mesmo, começou a trabalhar em seu plano austero de ajuste fiscal.

Assumiu a Fazenda com um duro discurso, criticando fortemente o patrimonialismo e as políticas setoriais. "O patrimonialismo, como se sabe, é a pior privatização da coisa pública. Ele se desenvolve em um ambiente onde a burocracia se organiza mais por mecanismos de lealdade do que especialização ou capacidade técnica, e os limites do Estado são imprecisos", afirmou.

Levy e Nelson travaram nos bastidores uma guerra em que discordavam nos principais pontos da política econômica. Levy começou ganhando batalhas. Anunciou medidas duras de endurecimento nas regras para o seguro-desemprego e pensões e aumentou impostos sobre gasolina e bebidas. Cortou subsídios nos financiamentos dos bancos públicos. Acabou com a desoneração sobre a folha de pagamentos.

Workaholic, trabalhou arduamente para ver seu ajuste fiscal aprovado. Ficava até as 2h da manhã no Ministério rotineiramente. Exigente com sua equipe, trocava de assessores com frequência. Fazia o corpo-a-corpo com deputados e senadores. Mas, à medida em que a crise política se aprofundava, a arrecadação se retraía, a inflação se aproximava de dois dígitos e o desemprego começava a crescer, as vitórias de Levy foram minguando.

Em meados do ano, a derrota na batalha da meta foi o estopim dos primeiros boatos de que seu período à frente do Ministério da Fazenda estaria com os dias contados. Levy insistia para que o superávit primário para este ano fosse mantido em 1,13%, ou R$ 55,3 bilhões. Mas em julho a meta foi cortada e, mais tarde, virou um déficit que pode chegar a R$ 120 bilhões.

O ministro passou a ser alvo de críticas cada vez mais vorazes, principalmente do PT, capitaneadas pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Levy insistia que o ajuste fiscal precisava ser aprovado para que a economia voltasse a crescer. E era atacado por só falar em ajuste fiscal.

Em setembro, a preocupação aumentou com o rebaixamento da nota de crédito brasileira pela Standard & Poor's. Antevendo o downgrade por uma segunda agência, Levy trabalhou pela aprovação das peças orçamentárias do ano que vem com a maior meta possível, que, para ele, era de 0,7% do PIB. Ameaçou deixar o governo se a meta não fosse aprovada. Para, poucos dias depois, a presidente enviar ao Congresso Nacional uma meta que poderia ser até zero - acabou sendo aprovada em 0,5% do PIB.

Veio o segundo rebaixamento, pela Fitch. Levy tomou como última missão a aprovação de medidas provisórias que aumentam a receita no orçamento de 2016. Na quinta-feira, se despediu dos colegas na reunião do Conselho Monetário Nacional (CMN). Hoje, depois de um ano e 22 dias de ter sido indicado ao cargo, Joaquim Levy deixou o ministério dizendo não se sentir traído, "mas um pouco decepcionado". /COLABOROU BERNARDO CARAM

 

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