Evelson de Fretas/Estadão
Evelson de Fretas/Estadão

'Levy é um ‘diabo’ mais inteligente'

Para economista, o novo ministro da Fazenda é um adepto da teoria ortodoxa que entende as novas necessidades do Brasil

Entrevista com

Luiz Carlos Mendonça de Barros

Alexa Salomão, O Estado de S. Paulo

10 de janeiro de 2015 | 22h00

Luiz Carlos Mendonça de Barros está otimista com o que chama de “ruptura”. Primeiro porque, na sua avaliação, a presidente Dilma mudou. Não só abandonou o grupo formado por egressos da Unicamp, a Universidade Estadual de Campinas, como foi buscar para o Ministério da Fazenda Joaquim Levy, que fez doutorado na americana Universidade de Chicago, conhecida por suas tendências liberais. 

“Ela fez uma opção radical”, diz. “Para Unicamp, Chicago é o diabo”, diz. Sua segunda boa surpresa é a habilidade de Levy de fazer um equilíbrio entre a teoria econômica ortodoxa e as necessidades do novo Brasil. “Levy tem o fundamental da teoria adaptado à situação política que está aí – algo que o PSDB não entende”. Abaixo trechos da entrevista que concedeu ao Estado

Muitos analistas ainda não acreditam que ele conseguirá fazer o ajuste que propôs. É pessimismo ou realismo?

É burrice. Você me desculpe, mas ao 72 anos eu gosto de usar as palavras corretas. Isso sempre acontece. Gente que trabalha no mercado financeiro tem uma visão muito fechada do mundo. Fechada nele. Na grande maioria do tempo, tudo bem. Mas tem certos momentos em que a política e a sociedade entram no processo, e passamos a ter toda uma lógica diferente daquela seguida no dia a dia do mercado financeiro. Acho que estamos vivendo um momento desses. Para entender o que está acontecendo, precisa ter uma visão um pouco mais ampla da questão econômica. Por exemplo: eu não tenho dúvida de que a presidente Dilma fez uma opção radical. Eu, que penso ser um analista da economia, pela minha idade, pela minha experiência, mais cínico do que a média dos analistas, venho olhando de uma forma diferente a nomeação do Levy.

Diferente como?

A presidente Dilma é uma mulher que tem uma certa capacidade intelectual. Ela pode ter alguns defeitos de personalidade, mas burra não é. Ninguém chega a ser presidente da República se não tem um mínimo de capacidade analítica, de compreensão do Brasil. Eu parto desse pressuposto. Ela percebeu que ter seguido a política econômica do PT, da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas, considerada centro de estudos do social-desenvolvimentismo), nos primeiros quatro anos de mandato quase lhe custou a reeleição. 

O senhor diz que ela adotou a política econômica do PSDB, a qual se opôs durante a campanha? 

É aí que vem o meu cinismo. Eu aprendi uma coisa com Sérgio Motta (falecido ex-ministro das Comunicações), no tempo em que trabalhamos juntos no governo de Fernando Henrique. A política tem um código de ética diferente. Na política é permitido mentir e enganar. Todo mundo faz isso. Evidente que há certos limites. Mas Sérgio dizia: não há um linha ética na política, há uma faixa ética. Aquilo que para nós, cidadãos comuns, ou é ético ou não é ético – não tem outra opção –, na política é diferente. 

Por isso, o que me interessa não é o que ela falou na campanha, mas a decisão agora. E é uma decisão corajosa. O que ela diz? 'Eu rompi com esse pessoal que trabalhou comigo no primeiro mandato e por uma razão simples: eu acreditava nisso, mas os resultados são tão óbvios que no segundo mandato eu mudei.' Ela tirou todo mundo. Ela, de certa forma, cuspiu no prato que comeu nos últimos quatro anos. Não deve ter sido fácil. Ela fez doutorado na Unicamp. Tem grandes amigos da Unicamp. O chefe da Casa Civil dela é um ex-professor de lá. Não deve ter sido fácil descartar, de uma maneira tão clara, a influência dela. E trouxe – eu dei aula seis anos na Unicamp, sei o que estou falando –, diretamente do inferno, um representante do diabo, que é o Levy. Para a Unicamp, o diabo é Chicago (Universidade de Chicago, nos Estados Unidos, considerada centro de estudo da teoria econômica liberal). E ela foi buscar um cara de Chicago. Mas ele é um diabo mais inteligente do que outros. Sabe que saiu do inferno, segundo a Unicamp, e foi para a Fazenda, onde vai lidar com aspectos mais controversos, tipo opinião pública, Congresso.

O senhor está otimista, então.

Estou otimista pela busca da solução. Não é otimismo do tipo: vai dar tudo certo. É o otimismo porque houve uma ruptura. Da mesma forma que o Lula fez uma ruptura com o discurso dele e do PT, quando tomou posse, ela fez agora. Como Levy veio do inferno, tem muito mais legitimidade perante os outros diabos de ser um pouco desenvolvimentista. Eu tenho nove netos. Estou olhando para o Brasil deles, daqui a 10, 15 anos. Para esse Brasil, a decisão dela foi absolutamente correta. Se tentasse replicar no segundo mandato as políticas do primeiro, realmente, a gente perderia o grau de investimento e voltaria no tempo.

Não há mais risco de perda do grau de investimento? 

Como o Levy, certamente não. Essas agências de risco são sediadas no inferno. Você acha que esses diabinhos vão tirar o grau de investimento desse diabão que está agora no Ministério da Fazenda? Não vão. Da mesma forma que Lula acertou em pegar um deputado do PSDB, presidente de banco internacional (Henrique Meirelles, ex-presidente do Banco Central) – o que naquele momento foi um ato de sabedoria. Calou a boca de todo mundo e quem não calou perdeu muito dinheiro. Ela fez isso agora. Pergunta: é certeza que vai dar certo? Não sei. Mas manter a política do primeiro mandato seria um desastre. 

A divergência entre governo e Nelson Barbosa em relação ao salário mínimo foi um sinal ruim?

O Nelson Barbosa (ministro do Planejamento) não deveria ter falado nada. É o tipo de coisa que acontece com quem ainda não está preparado para o cargo que ocupa. Ele vai aprender. Mas não tinha de ter dito nada. O Levy não escorregou. É aí que vem a parte mais interessante da atual mudança. Se você olhar o discurso do Levy, vai ver que ele é muito interessante, porque não é o discurso do Malan (Pedro Malan, ex-ministro da Fazenda). Levy acomoda a parte social, a parte do crescimento, dentro de arcabouço ortodoxo. E por que não é o Malan? Porque Malan diria que precisa fazer isso e aquilo porque a teoria econômica me manda. Isso deu um monte de problemas na época do Fernando Henrique. Tinha horas que exageravam na busca da ortodoxia, sabendo que a política não permitiria que tudo fosse feito. 

A gente sempre falava: o ministro da Fazenda precisa buscar o que se chama de ‘second best’, o segundo melhor. O Levy entendeu. Tem o fundamental da teoria econômica adaptado à situação política que está aí. Tem uma parte do discurso dele que é muito importante e que o PSDB não consegue fazer.

Qual parte?

O trecho em que ele reconhece o crescimento da classe média. Talvez uma das coisas mais importantes que aconteceu no Brasil nos últimos 12 anos – 8 anos do Lula, mais 4 dela – foi o aparecimento dessa classe média nova. Pegue as faixas de renda do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) e divida em dois grupos. Coloque ABC de um lado, DE de outro. Por que é importante fazer essa divisão? Porque ABC vive no mundo formal da economia e DE, no informal – não tem carteira, vive de bico. Em 2003, um terço era ABC. Dois terços, DE. No fim do primeiro governo Dilma, 70% são ABC, 30% DE.

Essa classe média é um legado do governo do PT, então?

Não tenho dúvida. Não tenho dúvida porque essa é a realidade. Se você perguntar para o sujeito que passou de uma classe para outra ele vai dizer que foi durante o governo de Lula ou de Dilma. Nós sabemos que isso é um fato que precisa ser explicado. Por que isso aconteceu? Porque houve o Plano Real, as reformas, a ajuda da China. Só que no âmbito da política e da comunicação social, você não tem tempo de explicar isso. As coisas são mais simples. Certo? O PSDB tem uma dificuldade imensa de aceitar isso. Levy aceitou. Está escrito no programa. Ele colocou de forma muito inteligente. Disse que “agora temos de preservar esta mudança de classe que ocorre”. E esse pessoal que mudou de classe só melhora se o País crescer. É uma lógica para a frente. Não é uma lógica para trás. Essa parte do discurso do Levy – e nem sei se ele percebeu isso – legitima a mudança na política econômica. 

Quando Levy diz que vai tirar o foco do consumo e fomentar a poupança, não vai castigar um pouco essa nova classe média?

Se for isso, está errado. O brasileiro poupa pouco porque é brasileiro. O indivíduo. É por isso que o Estado brasileiro deve poupar. É só olhar o PIB (Produto Interno Bruto) do Brasil. O consumo das famílias é dois terços do PIB. Isto é uma marca indelével da sociedade. Não dá para achar que o brasileiro vai convergir para uma poupança tipo chinesa, de 40%. Só mudando o povo. Mas você não muda o povo. É por isso que a política econômica no Brasil precisa ser feita no pressuposto de que a sociedade poupa pouco e consome muito. Como isso é verdade, não posso transformar o governo em consumidor – o que ela fez nos primeiros quatro anos. É preciso recompor a poupança pública e ganhar a confiança do exterior, porque precisamos da poupança externa para complementar a poupança aqui dentro, investir e crescer. É essa lógica que a Unicamp nunca teve. Queria que o Brasil crescesse pelo aumento do consumo e, portanto, o governo deveria aumentar o seu gasto. Isso é uma leitura absolutamente equivocada do ponto de vista macroeconômico. Mas isso agora ficou para trás. 

Avaliando essas mudanças que o sr. está mencionando, qual é o cenário daqui para a frente?

Depois de um longo período de crescimento, o desemprego é 4,6%. Temos pressões horríveis no mercado de trabalho. Os sindicatos, cumprindo a função deles, aproveitaram para impor reajustes e ganhos sociais que acabaram pressionando o custo das empresas e criando na indústria uma situação dramática. O que ela vai ter de fazer – e a nova política já está fazendo: flexibilizar o mercado de trabalho. Em outras palavras, gerar algum desemprego. Isso já está ocorrendo no setor automobilístico. Os sindicatos vão perder força e negociar coisas mais razoáveis. Ao fazer isso, também tira a pressão do consumo, o que afeta a inflação, principalmente nos segmentos como serviços, onde há uma inflação de demanda. 

Também haverá um ajuste na conta corrente. O Brasil chegou a ter superávit de 3% na conta corrente no governo Lula. Hoje tem 4% de déficit, na fronteira do risco. Essa política vai trazer a conta corrente num nível mais adequado, que é 2,5%. Mas para fazer isso, economia não vai crescer por dois anos. Mas não pode desandar o angu: apertar demais e provocar uma queda acima da suportada no consumo. Bom senso será importante. 

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