UESLEI MARCELINO/REUTERS
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Levy tenta se reinventar após ser o 'homem certo'

Depois de sofrer duas derrotas com a redução da meta do superávit primário e a chance de o País ser rebaixado, ministro fica isolado

Lu Aiko Otta, Adriana Fernandes e Ricardo Brito, O Estado de S. Paulo

01 de agosto de 2015 | 16h06

BRASÍLIA - O segundo semestre será decisivo para determinar se o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, terá força para continuar a exercer o comando sobre a política econômica. Após amargar duas derrotas de peso, com a redução da meta fiscal e a perspectiva mais próxima de perda, pelo Brasil, do grau de investimento, o ministro luta para sair do isolamento. Ficou sem as suas principais bandeiras, levantadas assim que desembarcou no governo Dilma Rousseff com a marca de “homem certo” para colocar a economia de novo nos trilhos. Agora, terá de se reinventar.

Em menos de oito meses no cargo, sua imagem de intocável começa a sofrer arranhões até perante o mercado financeiro, onde goza de prestígio praticamente unânime. E, na política, conta cada vez menos com respaldo, depois de uma atuação considerada pouco hábil e até mesmo ingênua pelas lideranças parlamentares.

Sua sobrevivência agora depende de avanços em projetos voltados para a retomada do crescimento. Também tentará fechar o ano com um resultado melhor do que a meta reduzida de 0,15%, para mostrar que o programa de ajuste continua vivo.

Para tanto, ele atua em duas frentes. Na economia, adota propostas que não eram o centro de seu programa original, como a repatriação de recursos depositados no exterior sem declaração à Receita e as reformas do ICMS e do PIS-Cofins. Aposta também em medidas que engordarão o caixa no curto prazo, como a venda de bens do governo.

Na política, um dos eixos de atuação foi se aliar com o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), e com o senador Romero Jucá (PMDB-RR), conhecido como “relator-geral da República”. Os dois têm sido demandados por Levy a ajudar numa agenda de crescimento. 

Ele conta também com o apoio de ministros políticos, que estão em cargos voltados para a produção: Eduardo Braga, de Minas e Energia, Kátia Abreu, da Agricultura, e Armando Monteiro, do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior. Depois de um encontro com Levy, o ex-presidente Lula diminuiu as críticas ao ajuste fiscal e dá sinais que está mais disposto a colaborar.

Na oposição. Discretamente, o ministro tem buscado apoio até na oposição e tem obtido sinais positivos de pessoas como o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, o ex-presidente do Banco Central Armínio Fraga e o governador de São Paulo Geraldo Alckmin. O argumento é que o Congresso precisa ajudar a evitar a perda do grau de investimento, o que será ruim para todos. O entendimento é que ninguém quer chegar em 2018 com a economia no chão.

É com essa percepção que o ministro conta. A avaliação é de que a ficha está começando a cair não só para os aliados, mas também para a oposição, se projetos com aumento de gastos continuarem sendo aprovados

De fato, o quadro econômico tem levantado preocupações até entre os tucanos. Os mais experientes dizem que, há três meses, não esperavam um agravamento tão agudo como o visto atualmente. E que, diante disso, é preciso moderar posições. Há intenção de dialogar com a ala mais jovem do partido.

Sem espaço político para fazer reformas estruturais, aumentar a carga tributária e com o tombo de cerca de 6% reais da massa salarial, o cenário não é nada animador. Se os protestos ganharem força no segundo semestre, corre o risco de ficar ainda mais isolado.

Dificuldade no governo. Embora tenha voltado sua artilharia em direção ao Congresso, que podou todas as medidas destinadas a melhorar a situação das contas públicas, o ministro também enfrenta dificuldades em suas próprias linhas. Uma amostra foi dada na reunião da presidente Dilma com governadores, na quinta-feira.

Além de não conseguir um apoio efetivo dos governadores para a reforma do ICMS, ele foi deixado em pé próximo a uma mesa na qual seu colega da Casa Civil, Aloizio Mercadante, dava entrevista ao lado de governadores. Na ritualística do poder, a falta de uma cadeira pode dizer muita coisa.

O ministro do Planejamento, Nelson Barbosa, tem ocupado espaço crescente para falar pelo governo sobre economia e, ultimamente, tem se sentido à vontade para falar de temas que não são diretamente afeitos à sua Pasta, como câmbio e inflação. Tem, inclusive, circulado com mais desenvoltura no Congresso. Mas, daí a ele ser cotado como um eventual substituto, mais forte, de Levy, vai uma distância. “Que diferença vai fazer, não tem dinheiro”, comentou um líder da base do Senado.

Receita do ajuste ataca popularidade

Não bastassem todas as dificuldades, a receita do ajuste econômico do ministro Joaquim Levy tem uma desvantagem extra: começar pela redução da renda. Para economistas, esse é um passo natural de um ajuste clássico, no qual o consumo precisa cair para enfraquecer a inflação e abrir espaço para a queda dos juros. 

Mas, para cientistas políticos, a renda é o principal sustentáculo da popularidade. Se as pessoas têm dinheiro, podem consumir e se sentem seguras em relação ao futuro, não há escândalo que afete a avaliação do governo. 

Descontados os efeitos da inflação, a renda vai cair de 5,3% a 6,3%, dependendo do índice usado. Com isso, haverá menos consumo, menos investimento e mais gastos com seguro-desemprego. Um economista de mercado se mostrou surpreso com a falta de exploração política desse dado. Para ele, o governo cometeu um “sincericídio”.

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