LG ganha terreno, mas fábrica não sai do papel

Cronograma previa que unidade de Paulínia estaria pronta em outubro, mas obras não começaram e prefeitura pode retomar área

MARINA GAZZONI, O Estado de S.Paulo

18 Dezembro 2011 | 03h06

Os planos da LG de produzir linha branca no Brasil começaram a azedar. Um ano depois de anunciar uma fábrica em Paulínia, a 110 km de São Paulo, a empresa coreana comunicou à prefeitura que o projeto foi adiado. O plano divulgado em dezembro de 2010 previa que a unidade estaria pronta em outubro e produziria para o Natal de 2011. Mas a fábrica não saiu do papel e a LG pode perder o terreno.

O terreno de 670 mil metros quadrados doado pela prefeitura para a construção da fábrica é hoje só mato. Não há placas ou obras que identifiquem que o local receberá uma planta industrial de uma multinacional. "No começo do ano vieram uns 'japoneses' aqui para medir o terreno, mas faz tempo que não aparece ninguém", disse um dos poucos moradores das redondezas.

O projeto previa investimento inicial de R$ 500 milhões, que poderia chegar a R$ 1 bilhão, segundo a prefeitura de Paulínia. Só em 2011, o cronograma previa o desembolso de US$ 115 milhões. A fábrica veio com a promessa de gerar 4 mil empregos diretos e um compromisso de contratar 30% de mão de obra local.

A fábrica brasileira era peça-chave nos planos da LG, divulgados em janeiro, de se tornar líder global na venda de eletrodomésticos até 2014, com meta de faturamento de US$ 20 bilhões. Apesar de o Brasil ser um dos principais mercados globais, a presença da LG nesse segmento é tímida. Sem produzir linha branca no País, a empresa trouxe ao Brasil refrigeradores e máquinas de lavar importados em 2005, voltados à população de alta renda.

Em 2010, os eletrodomésticos representaram apenas 3% do faturamento da LG no Brasil, de US$ 3,1 bilhões. No mundo, eles foram cerca de 15% da receita.

Proposta. A LG chegou a Paulínia por meio do escritório de advocacia Dantas, Lee, Brock & Camargo, que protocolou, em 3 de dezembro de 2010, um pedido de doação de terreno e incentivo fiscal para instalação de uma fábrica. O pedido veio com um projeto de cerca de 250 páginas, com detalhes do empreendimento.

A fábrica teria três galpões de 50 mil metros quadrados cada e um espaço para unidades de seis fornecedores. Era necessário, portanto, um terreno com mais de 600 mil metros quadrados.

Segundo o secretário de Planejamento de Paulínia, Esdras Pavan, a prefeitura doou o único terreno que se enquadrava na solicitação - uma área avaliada pela prefeitura em, pelo menos, R$ 100 milhões. "A fábrica poderia ser a segunda grande oportunidade do município", afirmou o secretário ao Estado.

A primeira foi a instalação em Paulínia da Replan, a refinaria da Petrobrás, em 1972 - a empresa é responsável por cerca de 70% da arrecadação do município.

A escritura de doação foi transferida para a LG em março, com a condição de que o projeto estivesse pronto em até cinco anos. Mas, em abril, os primeiros entraves da nova fábrica vieram à tona. A LG pediu à prefeitura para trocar o terreno doado. A empresa teria recebido uma recomendação da matriz, na Coreia, para construir a fábrica com um só pavimento e não em três, estrutura mais adequada para o terreno, que é inclinado. Para atender à recomendação, a empresa gastaria cerca de R$ 30 milhões em terraplanagem.

Diante da negativa do município, a LG solicitou, então, que a prefeitura arcasse com os custos de terraplanagem, segundo Pavan. "O prefeito respondeu que não. A prefeitura já investiu um valor alto nesse projeto, com a doação do terreno", disse. A partir daí, os contatos com a LG diminuíram. "Eles vinham aqui toda semana. Agora faz uns dois meses que não vêm."

Procurada, a LG disse apenas, em comunicado, que informou à prefeitura, no último dia 14, que "o projeto da nova fábrica foi postergado". A empresa não quis dar entrevista.

O documento enviado à prefeitura, ao qual o Estado teve acesso, cita como causas do adiamento do projeto a crise econômica global e imperfeições no terreno. "Eles viram a área antes de passarmos a escritura e pagaram R$ 2 milhões em ITCMD (imposto de doação). Como agora vêm dizer que o terreno é inadequado para a fábrica?", questionou o secretário.

Agora, a prefeitura quer saber exatamente quando a empresa pretende começar a construir a fábrica. Segundo ele, se o grupo coreano não sinalizar quando a unidade ficará pronta, a prefeitura estuda retomar o terreno e doar para outra empresa.

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