Liberalismo sério ainda é o caminho, diz Mendonça de Barros

Para o ex-presidente do BNDES, é necessário equilíbrio entre auto-regulação e restrições feitas pelo Estado

Giuliana Vallone, do estadao.com.br,

02 Outubro 2008 | 07h46

A grande lição da crise econômica é que é necessário um equilíbrio entre a auto-regulação pregada pelos neoliberalistas e as restrições legais feitas pelo Estado ao mercado. Essa é a opinião do economista e engenheiro Luiz Carlos Mendonça de Barros, ex-presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Para ele, os problemas no mercado de crédito norte-americano mostram que a incapacidade dos órgãos reguladores de acompanharem as inovações mercadológicas pode ser a grande razão para a turbulência atual. Leia a íntegra da entrevista com Mendonça de Barros:   O plano de resgate de instituições financeiras nos Estados Unidos pode salvar o sistema?   A utilização de recursos públicos - US$ 700 bilhões - não deve ser vista como a salvação do sistema financeiro americano ou, como se diz na linguagem do mercado, como a bala de prata que vai terminar com a crise. Será um passo importante para a redução da quase histeria que tomou conta de investidores e banqueiros e, com isto, abrir espaço para que o sistema financeiro possa voltar a cumprir sua função dentro de uma economia de mercado.   Para que isto ocorra, a utilização de recursos do Tesouro americano terá que vir acompanhada por outras medidas, como a definição de regras mais claras de controle das operações financeiras. Além disto, será preciso que o mercado consiga visualizar um início de recuperação das principais economias do primeiro mundo. Para isto os Bancos Centrais vão ter que sinalizar uma nova rodada de redução das taxas de juros.   Esse pacote e a conseqüente intervenção do Estado no mercado representam o fim do neoliberalismo?   De maneira alguma. Esta crise mostra apenas que o liberalismo tem limites e que a participação dos governos na definição de regras de funcionamento dos mercados é ainda um instrumento importante. O que está derrotada é uma visão errada do equilíbrio entre a ação de governos e a liberdade dos mercados. A frase cunhada pelo ex-presidente Reagan - o governo é o problema e não a solução - é que precisa ser enterrada definitivamente. Este neoliberalismo quase religioso é que está morto. O liberalismo sério, sem demagogia, ainda é o caminho correto a ser trilhado pelas sociedades modernas.   A crise nos EUA e a seqüência de medidas para a sua possível resolução mostra que os mercados não têm capacidade de se auto-regular?   Esta é a grande lição desta crise. Eu vivi os últimos quarenta anos trabalhando no mercado financeiro, inclusive como diretor do Banco Central do Brasil, e sempre tinha muito claro os riscos da auto-regulação. Em vários momentos de crise no mercado brasileiro o conceito da auto-regulação sempre teve um papel importante. Na débâcle atual do mercado bancário americano a liberdade exagerada, principalmente em mercados novos como os de derivativos de crédito, também está na origem dos maiores problemas. Entendo que um equilíbrio entre restrições legais e auto-regulação, principalmente nos mercados organizados como Bolsa de Valores e de derivativos financeiros, é a receita correta para reduzir a possibilidade de ocorrência de crises como a que estamos vivendo hoje.   Qual foi a grande falha nessa teoria?   É importante ressaltar que as regras estabelecidas pela regulação externa aos mercados precisam evoluir com o desenvolvimento de novos produtos financeiros para evitar o aparecimento de espaços não regulados. O melhor exemplo disto é o aparecimento de um mercado de vários trilhões de dólares, sem nenhuma regulação, como o representado pelos chamados CDS - credit derivative swaps. Talvez esta incapacidade dos órgãos reguladores de acompanhar as inovações financeiras tenha sido o fator mais importante para chegarmos à irracionalidade dos dias de hoje.     Quais as perspectivas agora? Uma nova teoria econômica pode sair desta situação?   A teoria econômica não precisa ser mudada. A crise atual foi motivada integralmente por um delírio especulativo com produtos financeiros. O que precisamos é um entendimento correto sobre os limites do liberalismo e que a natureza humana cria momentos de extrema irracionalidade - as chamadas bolhas - que só podem ser evitadas por um arcabouço normativo eficiente e pela fiscalização externa, principalmente dos órgãos reguladores bancários.

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