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Libertadores da América

O Executivo pode erguer um firewall contra o contágio político regional

Paulo Leme*, O Estado de S.Paulo

01 de dezembro de 2019 | 04h00

Desde outubro, a América Latina virou palco de uma onda crescente de manifestações e violência política. Esta crise não é nova, mas ela está se aproximando do Brasil. A região tem um histórico de décadas de violência do narcotráfico no México e Colômbia; uma prolongada convulsão política na Guatemala e Nicarágua; e a tragédia na Venezuela. 

No dia 2 de outubro o Equador sofreu uma onda de protestos contra as duras medidas de ajuste e reformas negociadas com o FMI.

Duas semanas depois, a onda chegou ao Chile que, até então, era, de acordo com o presidente Sebastián Piñera, “um oásis de estabilidade” na região. Bastou um aumento de 3,7% nas tarifas de metrô para surpreender o país com a gravidade e a violência das manifestações. O governo estava fora de sintonia com os segmentos menos favorecidos da população e o seu aparato de segurança estava despreparado para lidar com esta situação, o que agravou a crise.

Na segunda semana de novembro a chama da desordem cruzou os Andes para a Bolívia, forçando o ex-presidente Evo Morales a renunciar ao seu questionável quarto mandato presidencial. Morales foi calorosamente recebido no México pelo hermano López

Obrador

Na semana seguinte a chama ardeu na Colômbia, que foi paralisada por uma greve geral, protestos, e violência nas ruas. O presidente Duque ainda luta para restaurar a ordem. 

No dia 10 de dezembro, os peronistas voltarão ao governo Argentino. O presidente eleito Fernandez terá que enfrentar uma inflação incandescente (50% em outubro), uma profunda recessão, e pagar US$ 54 bilhões de juros e amortizações da dívida externa em 2020. Boa sorte! 

A diferença das queimadas que se alastram pela Amazônia, não há nada que garanta que estas chamas chegarão ao Brasil. No entanto, é importante prevenir para não sermos pegos de surpresa. Isto exige ter sensibilidade política, estar ciente dos nossos problemas sociais, e saber diferenciar o Brasil da região. 

O governo precisa acelerar o crescimento. Entre 2016 e 2019, enquanto que a média do crescimento do PIB da América Latina (sem Venezuela) foi 1,2%, a média do Brasil foi zero. Durante este período, o Chile, a Colômbia, e o Equador cresceram 2,4%, 2,4%, e 0,5%, respectivamente. Na Argentina, o PIB caiu 1,3%, devido à queda do preço dos commodities, uma seca severa, e a incapacidade do presidente Macri de implementar reformas. O FMI prevê que em 2020 o Brasil irá crescer 2,0%, ficando ligeiramente abaixo da média da região. 

A mensagem da turma que queima pneus e encobre as capitais com uma névoa de gás lacrimogêneo é que o governo tem que avançar com cautela no processo de ajuste e reformas. O movimento passe livre em 2013 e a greve dos caminhoneiros em 2018 tomaram o Brasil de surpresa, mostrando que nós também somos vulneráveis a estas crises. 

O ajuste fiscal e as reformas estruturais são imprescindíveis para o Brasil voltar a crescer. No entanto, temos que ler o momento político corretamente, equilibrando a velocidade e profundidade do ajuste fiscal com atuações pontuais de natureza social. O governo deve acelerar a implementação das reformas que aumentam a produtividade e que estimulam a concorrência mas que, ao mesmo tempo, não sejam regressivas. As reformas do sistema bancário e mercado de capitais são bons exemplos. 

Desde 2005, esta é a primeira vez que a nossa política econômica avança na direção correta, enquanto que os nossos vizinhos se atropelam na contramão da via heterodoxa. Optamos por privatizar e diminuir o tamanho do Estado; reduzir o déficit fiscal e o tamanho dívida pública; abrir a nossa economia ao comércio internacional; e implementar reformas que aumentem a produtividade, crescimento e emprego. 

Dado que as perspectivas econômicas e políticas para nossos vizinhos não são boas, temos que nos diferenciar deles. O governo tem que criar um ambiente claro e confiável para atrair o investimento estrangeiro e administrar habilidosamente os nossos problemas socioeconômicos e ambientais. Ao invés de hostilizar, o Executivo deveria usar as redes sociais de forma moderna e inteligente para unir e não polarizar o País.

Com sensatez, o Executivo pode erguer um firewall contra o contágio político regional e atrair para o Brasil o capital estrangeiro que tanto precisamos para investir e crescer. Erguer a taça é fácil; vencer a Libertadores da América vai ser difícil.

*PROFESSOR DE FINANÇAS NA UNIVERSIDADE DE MIAMI 

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