Líbia de olho na dívida do Brasil

Kadafi quer comprar papéis do País

Jamil Chade, GENEBRA, O Estadao de S.Paulo

19 de junho de 2009 | 00h00

O governo da Líbia negocia a compra de títulos da dívida do Brasil e quer ainda entrar no mercado de ações do País. Com um dos maiores fundos soberanos do mundo, o governo do coronel Muamar Kadafi quer aplicar seus recursos no Brasil. O mesmo fundo estuda investir em agricultura na Bahia, com projetos de irrigação e a garantia de abastecimento de alimentos. No fim do mês, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva visitará a Líbia. Essa será sua segunda visita ao país desde o início de seu mandato. Ainda que o motivo da viagem seja o de participar da reunião da União Africana, Lula aproveitará para falar dos interesses comerciais dos dois países.Criada há três anos, a Autoridade de Investimentos da Líbia se beneficiou da alta do preço do petróleo desde 2001 para acumular reservas de US$ 65 bilhões e, assim, investir no exterior. Segundo o Sovereign Wealth Fund Institute, o fundo líbio é o 13º maior do mundo. Segundo a embaixada do Brasil em Trípoli, o plano dos líbios é investir em papéis de empresas brasileiras, além de títulos da dívida pública. O valor final dos investimentos no Brasil ainda não está fechado. Mas a diplomacia brasileira garante que o volume é "substancial". Essa não é a primeira ofensiva dos líbios no exterior. Por enquanto, a maior atenção está sendo dada aos investimentos na Itália, onde Kadafi esteve há 10 dias. Em 2008, o fundo líbio comprou 4,6% das ações do UniCredit, segundo maior banco italiano. O fundo também adquiriu uma parte da empresa de petróleo Eni, além de estudar opções na Enel e no Mediobanca.O uso dos petrodólares estaria apenas começando diante do fim das sanções internacionais contra o país. Hoje, o fundo de Kadafi ainda tem uma participação na Banca di Roma e no clube de futebol de Turim, a Juventus.O que a Líbia faz, porém, não é nada diferente do que outros países ricos em petróleo promoveram nos últimos anos. Os governos do Catar, Emirados Árabes, Arábia Saudita e outros acumularam enormes reservas com a alta do preço do petróleo e agora buscam forma de lucrar com os recursos, comprando participações em empresas tradicionais do Ocidente, como o Citigroup e mesmo a bolsa Nasdaq. A Líbia exportou cerca de US$ 135 milhões em petróleo por dia em 2008, em um momento de altas nos preços. Só o Brasil importou cerca de US$ 1 bilhão da Líbia em petróleo em 2008.O Goldman Sachs estima que, nos últimos sete anos, os países que importam petróleo transferiram para os países exportadores do combustível cerca de US$ 3 trilhões em troca do petróleo. Só em 2008, os lucros dos países da Opep chegaram a US$ 850 bilhões.

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