Lang Lang/Reuters
Estruturada em ecossistema, o Alibaba mudou a forma das empresas do varejo. Lang Lang/Reuters

Lição sobre a China atrai empresários

Com blocos e canetas nas mãos, executivos de primeiro escalão lotam aulas e viagens ao país asiático para entender o futuro dos negócios

Márcia De Chiara, O Estado de S.Paulo

20 de julho de 2019 | 12h00

No início do mês, cerca de 40 executivos e empresários de primeiro escalão sentaram-se num auditório, com caderno, caneta na mão e celular pronto para fotografar. Por quase duas horas, tornaram-se alunos atentos, para tentar entender o que está por trás do avanço avassalador de gigantes como Alibaba, Tecent, Baidu e outras. Queriam também buscar inspiração para tornar os negócios mais criativos, produtivos - e sobreviventes ao terremoto causado pela tecnologia.

No caso, o encontro aconteceu no Brooklin, para convidados da consultoria GS&MD. Comandantes de marcas tão diferentes quanto a empresa de logística Caramuru e as redes varejistas Kipling e Restoque assistiam ao especialista em mercado chinês In Hsieh, associado à consultoria, levá-los a uma imersão na cultura e no mundo dos negócios naquele país.

Não foi o único encontro do tipo. A cena tem repetido-se com alguma frequência em eventos promovidos por outras empresas, sobretudo ligadas à área de inovação. “O Vale do Silício é a meca da inovação, mas a China, nos últimos anos, virou referência para empresários de vários segmentos”, diz Pedro Englert, CEO da StartSe, empresa de educação executiva que promove encontros semelhantes.

Há 28 anos, a GS&MD leva executivos aos Estados Unidos para conhecer inovações das varejistas americanas. Só que o auditório repleto de executivos novatos e veteranos de vários setores lotou por causa da China. 

“Já levamos ao país 70 executivos, presidentes ou donos de empresas de diversos setores, varejo, indústria, mas os bancos têm predominado”, disse Eduardo Yamashita, diretor de operações da GS&MD.

Capitalismo de Estado

Governado pelo partido comunista e com a perspectiva de se tornar a maior economia do planeta em dez anos, segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI), a China virou modelo para as empresas capitalistas. 

Cerca de 15 anos atrás, as gigantes chinesas eram empresas de “garagem”. Uma das estratégias para se chegar lá, segundo Yamashita, é que as empresas são estruturadas em grandes ecossistemas. São companhias independentes, cujos negócios são altamente interdependentes. A geração de valor resulta das competências de cada empresa dentro desse universo interligado. “Fora do ecossistema, essas empresas não são nada”, diz ele. 

Um exemplo é o Alibaba, avaliado em cerca de US$ 500 bilhões, e que mudou a forma de fazer varejo, segundo Eduardo Terra, presidente da Sociedade Brasileira de Varejo e Consumo. A empresa nasceu como plataforma de exportação, conectando empresas da China com o resto do mundo. Evoluiu no comércio eletrônico por meio plataformas com propostas diferentes. Depois avançou para criação de solução de tecnologia, de logística para entregas e de pagamento de compras (Alipay). Sobre essa base, afirma Terra, foram erguidos negócios inovadores nos segmentos de e-commerce, supermercado, shopping, loja de departamento com uma velocidade impressionante. 

Não foi a única citada. A Luckin Coffee, concorrente chinesa da Starbucks, por exemplo, abriu 2.450 lojas em 14 meses.

Para Yamashita, uma das dificuldades de quem visita o país é entender a necessidade de crescer rapidamente para não ser engolido pela concorrência. Para isso, nos primeiros anos os ganhos são reinvestidos no negócio. Na cabeça do chinês, afirma Yamashita, o importante é o modelo de negócio ser sustentável - nesse momento o lucro não é variável-chave. “O empresário brasileiro fica louco com isso, pois é uma quebra de paradigma muito grande na forma de conduzir os negócios”, diz.

Outro segredo das empresas chinesas para se transformar no modelo hoje mais cobiçado por companhias de diferentes setores é a velocidade com a qual colocam em prática as inovações. “Enquanto o Vale do Silício pensa a inovação, a China executa e isso impressiona muito quem participa das nossas viagens”, diz Yamashita. 

As informações apresentadas à plateia são uma forma de instigar os participantes a visitarem o país asiático. No caso da GS&MD, um roteiro de 12 dias, com visitas guiadas, de negócios e turismo, e hospedagem em hotéis cinco estrelas, pode custar até R$ 40 mil.

Nos últimos dois anos, a StartSe, que tem escritório no Vale do Silício levou cerca de 500 executivos à China. O “programa educacional” de cinco dias, como prefere designar a viagem Englert, sai por US$ 4,5 mil e não inclui hospedagem. A China ganhou tanta importância que, em 2017, a consultoria abriu escritório em Pequim e, há seis meses, outro em Xangai.

Alavancas

- Urbanização

300 milhões de chineses migraram do campo para as cidades

- Escala global

Modelo mental de obsessão por crescimento

- Classe média

300 milhões de chineses ingressaram na classe média

- Educação

7,5 milhões por ano concluem faculdade

- Internet

800 milhões de acessos

- Governo

Tem forte presença nos negócios

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Quase todos voltam Inspirados

Consultores especializados em levar executivos para conhecer o mundo dos negócios do gigante asiático dizem que quase todos mudam alguma coisa no dia a dia de suas empresas

Márcia De Chiara, O Estado de S.Paulo

20 de julho de 2019 | 12h08

É quase impossível não ser fisgado pela China. Consultores especializados em levar executivos para conhecer o mundo dos negócios do gigante asiático dizem que quase todos, depois da viagem, ficam inspirados e mudam alguma coisa no dia a dia de suas empresas. 

“É impossível voltar de lá sem repensar o negócio. É uma janela para o futuro: é ver como será a relação entre as empresas e o impacto da tecnologia no dia a dia”, diz Eduardo Yamashita, diretor da GS&MD.

Inspirado no que acabou de ver, Thibaud Lecuyer, cofundador da Dafiti, por exemplo, quer oferecer soluções de entrega das vendas em lockers (armários) para agilizar o serviço. Leia depoimentos de empresários e executivos que participaram de encontros em São Paulo sobre o país asiático.

Paulo Camargo, presidente do McDonald’s no Brasil

‘Hoje os gurus estão na China’

“Ainda não tive a oportunidade de viajar para a China, mas estou me preparando para visitar em breve o país. Há muitas coisas interessantes acontecendo lá, especialmente quando se fala em transformação digital. Conhecer mais sobre como esse processo que está acontecendo no país é muito inspirador, especialmente no nosso caso, que estamos conduzindo uma série de inovações para melhorar a experiência do cliente. Antes a gente ia para os Estados Unidos para entender o que poderia acontecer no nosso país. Hoje os gurus de inovação, gestão estão na China.”

Thibaud Lecuyer, cofundador da Dafiti 

‘Quero evoluir mais rápido’

“Fui para a China e acredito que a parte do pós-venda está muito evoluída naquele país. Já estamos bastante avançados na Dafiti, em termos de passar a informação para o cliente de onde está a mercadoria. Mas depois dessa viagem, basicamente, queremos evoluir mais rápido, oferecendo outras soluções. Queremos ser um dos primeiros a oferecer uma rede grande de entrega através de lockers. Um ponto surpreendente para mim na China é a facilidade em termos de pagamento, com o uso de aplicativos. Isso é uma coisa que estamos avaliando aqui.” 

Carolina Strobel, diretora de Inovação da Restoque

‘Momento é de unir modelos’

“Fui três vezes para a China: em 2005, 2009 e neste ano. A economia mudou de patamar lá. É um lugar onde as transformações estão acontecendo. Na China, não visitei empresas de varejo, mas de tecnologia. As lojas bacanas estão nos Estados Unidos, na Europa. O que tem na China são modelos de negócios inovadores, disruptivos e tecnologia. É uma combinação. O momento é de unir as inspirações: quero uma coisa linda maravilhosa como vejo nos EUA e algo absolutamente inovador e tecnológico como na China. Essa junção é a nossa grande inspiração.”

Jorge Gonçalves Filho, diretor do Grupo Saint-Gobain

‘Mudanças são inexoráveis’

“Estive na China em 2010. O país evoluiu muito porque a tecnologia digital fez a diferença. A China tem iniciativas interessantes e aplicáveis ao Brasil. Temos analisado muitas delas e também de outros países para melhorar a experiência do nosso cliente. Como vice-presidente do IDV, acho que a evolução nos meios de pagamento no varejo vai ser algo muito rápido também aqui. Todas essas mudanças são boas e inexoráveis, mas é preciso tomar cuidado e avaliar se elas geram valor e resultado. Isso a gente não consegue visualizar por enquanto.”

César Borges, vice-presidente da Caramuru Alimentos

‘Sonharia ter algo lá’

“Fui à China várias vezes, mas recentemente não. Acho que é preciso voltar lá a cada seis meses para acompanhar o que está acontecendo. Sonharia ter algum empreendimento naquele país. Se o mundo está se transformando lá dentro, por que não participar disso lá? Muitos podem achar estranho um executivo do setor de grãos estar num evento de varejo. Mas fui mordido pela mosquinha da inovação. Descobri que as ideias nascem e se ligam. O caminho da inovação pode ser direto ou indireto. Não dá para achar que se sabe de tudo. Tem que ficar ligadão.”

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