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Lições mal assimiladas

Infelizmente não foi inventado caminho fácil e indolor para a saída das crises econômicas

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

14 de agosto de 2015 | 21h00

Pipocam na imprensa manifestos, entrevistas e declarações de economistas do PT que condenam a política do ajuste fiscal praticada pelo segundo governo Dilma. Em seu lugar, recomendam a adoção de políticas econômicas anticíclicas.

Com isso, querem dizer que, em vez de uma política de austeridade e responsabilidade fiscal, o governo tem de fazer o contrário. Tem de aumentar as despesas públicas e derrubar os juros, para aumentar a renda da população, o consumo e a produção. É o jeito correto - dizem eles - para enfrentar a recessão e o desemprego e o mais do mesmo.

Essas ideias supostamente se baseiam nos ensinamentos de Keynes, o maior economista do século 20, que recomendava a intervenção do Estado para enfrentar a temporada de recesso e de desemprego.

Há nessa postura ensinamentos mal digeridos. O primeiro deles é o de pressupor que o despejo de recursos públicos pode ser realizado a qualquer momento, mesmo quando a dívida pública tiver chegado a níveis próximos do insustentável e quando não há recursos do Tesouro para o investimento. Ou seja, é achar que políticas anticíclicas sempre possam ser colocadas em prática, mesmo com forte desequilíbrio fiscal, como acontece agora. 

O Brasil está muito próximo da situação em que a dívida deixa de ser sustentável. Quando isso acontece, a inflação dispara, o crédito some, a economia fica inadministrável e a crise política tende a engolfar a crise econômica, também como agora. Botar ainda mais lenha nessa fogueira é provocar novos desastres.

O outro ensinamento mal digerido é o de que as demandas sociais sempre têm de ser atendidas, mesmo diante de fortes déficits estruturais, como este com que o Brasil convive agora. É deixar correr solta a despesa com Previdência Social, com seguro desemprego, serviços de saúde e o que mais vier. O resultado tende a ser o já descrito: O Estado quebrando ou já quebrado.

E um terceiro ensinamento mal digerido é o de que o estouro da inflação seja perfeitamente tolerável desde que a economia ande e os juros não asfixiem o sistema produtivo. Inflação come salários, derruba o consumo, desorganiza a economia e transforma em voo de galinha o eventual crescimento econômico que possa estimular.

Essas receitas foram plenamente utilizadas ao longo do primeiro período Dilma e conduziram ao que já se sabe: recessão, dívida alta demais e, agora, perspectiva de desemprego.

Estão impregnadas de voluntarismo, ou seja, da ideia de que o governo precisa atuar, não importando as condições dadas, bastando querer para fazer acontecer. Este é um traço das esquerdas que perderam o rumo com a queda do Muro de Berlim e com a impossibilidade do cumprimento do determinismo histórico em que acreditavam. Agora querem suprir essa deficiência com intervenções e mais intervenções, ainda que a esmo.

Infelizmente não foi inventado caminho fácil e indolor para a saída das crises econômicas. Desequilíbrios, distorções, excesso de dívida e desemprego só se corrigem com austeridade, sacrifício e recuperação da confiança.

CONFIRA:

Falha nossa 

Na Coluna de sexta-feira, foi dito que uma das sugestões apresentadas pelo presidente do Senado, Renan Calheiros, para ajudar os cofres públicos da União, foi levar os planos de saúde a ressarcirem o Sistema Único de Saúde (SUS) quando um beneficiário for atendido pelo sistema. Como observado pelo leitor Renato Nunes, o que a proposta de fato prevê é a regulamentação dos ressarcimentos já previstos pela Lei nº 9.656/1998. 

Conforme apontam os dados da Agência Nacional de Saúde (ANS), em 2014, só as internações hospitalares de beneficiários de planos de saúde no sistema do SUS geraram R$ 393 milhões de pagamentos feitos pelas administradoras de planos de saúde em ressarcimentos. Outros R$ 196 milhões não pagos pelos planos de saúde foram transformados em dívida ativa.

Além das internações, a realização de terapias de alta complexidade como quimioterapia, radioterapia e hemodiálise também podem ter o seu valor ressarcido quando realizadas em unidades do SUS por associados a planos de saúde, como o Ministério da Saúde anunciou em maio deste ano.

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