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Limites da confiança

Decepção com os números da economia é o outro lado da moeda do otimismo exagerado

José Paulo Kupfer, O Estado de S.Paulo

25 de outubro de 2016 | 05h02

A bandeira da arrumação da casa, empunhada pelo presidente Michel Temer, “desentocou” expectativas positivas e imediatas em relação à economia brasileira. A suposição que deixou muita gente animada desenhava um ciclo virtuoso, no qual a prioridade assumida pelo reequilíbrio das contas públicas conduziria à recuperação da perdida confiança em dias melhores, esta promoveria a retomada dos investimentos e deles resultaria geração de emprego e renda.

Esse roteiro perfeito expressa as bases práticas de uma formulação teórica – a da “contração expansionista” – que ganhou vida depois da grande crise de 2008 e cujo teste, no cotidiano das políticas econômicas de países tanto maduros quanto emergentes, tem produzido resultados, para dizer o mínimo, controversos. De todo modo, se, em razão dos exemplos internacionais pouco animadores, não é o caso de apostar tudo nesses pressupostos agora abraçados pelo governo, também não é o caso de rejeitá-los liminarmente, até porque é infinita a capacidade brasileira de revirar teorias econômicas.

Para começar, a “contração” contratada na PEC 241, que cria teto para os gastos públicos e o congela, em termos reais, por 20 anos, pelo menos nos primeiros dois anos tende a ser “expansionista”– a contração prevista, estimada como forte, seria progressiva. Além disso, diferentemente das experiências de outras economias, nas quais os juros se mantêm muito baixos ou já são negativos, aqui há enorme espaço para que a política monetária substitua a fiscal, pelo menos em parte, como elemento de propulsão da atividade, tal a discrepância representada pelos juros elevadíssimos praticados entre nós.

Tudo bem pesado, as apostas de que a confiança daria conta do recado da reversão do quadro recessivo, nunca deixaram de ser arriscadas. Por isso mesmo, a decepção produzida pelos números negativos da atividade econômica em agosto e a nova perspectiva de que a saída do fundo do poço demore mais do que muitos esperavam não deixam de ser o outro lado da moeda cunhada por um otimismo exagerado.

Verdade é que, nas atuais circunstâncias, análise criteriosa dos elementos que se somam para determinar, no lado da demanda, a produção líquida de riquezas de uma economia, deveria ter levado à conclusão de que, no Brasil, as chances de uma recuperação mais rápida e potente eram muito baixas. Para ser justo, é preciso ressalvar que alertas de que, descontados os efeitos cíclicos da aproximação do fundo do poço, a retomada seria lenta e tímida foram despachados por analistas qualificados, inclusive entre os alinhados com a visão econômica mais liberal do novo governo.

Com taxa elevada e ainda ascendente de desemprego, capacidade de produção ociosa em níveis recordes, endividamento generalizado, tanto de famílias quanto de empresas, e crédito travado não haveria mesmo cartola de onde tirar algum coelho de retomada rápida. A expectativa atualizada desses analistas é de que o recuo da economia, no terceiro trimestre do ano, tenha sido mais forte do que a queda de 0,6% registrada no trimestre anterior, com potencial para influenciar, negativamente, os últimos três meses do ano, jogar o fim da recessão mais para frente em 2017 e limitar o crescimento do ano.

A própria e difusa mola da confiança está demonstrando que tem limites. É muita alta, historicamente, a correlação entre níveis de confiança e produção industrial. As curvas da variação porcentual de ambos os indicadores, no acumulado em 12 meses, que mostram grande aderência ao longo do tempo, a partir de meados de 2015 e, com maior evidência, ao longo de 2016, descolaram – enquanto a confiança subia, a produção industrial continuava ladeira abaixo. Coincidência ou não, a prévia da sondagem de outubro da Fundação Getúlio Vargas aponta para uma nova queda do Índice de Confiança da Indústria (ICI), depois do “inesperado” recuo de agosto.

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