Limites do Trumponomics

Protecionismo anunciado pode não funcionar e acabar produzindo ineficiências

José Paulo Kupfer, O Estado de S.Paulo

24 de janeiro de 2017 | 05h00

Por tudo o que disse e que dele disseram, as perspectivas para a política e para a economia, nos Estados Unidos e no resto do mundo – com a chegada do bilionário e outsider político Donald Trump, nesta semana, aos painéis de controle da Casa Branca –, assustam. As promessas de aplicar políticas protecionistas e xenófobas, repetidas ao longo da campanha eleitoral e reafirmadas depois da vitória, inclusive e com grande clareza no discurso de posse, na sexta-feira, soam, para muitos, como ameaças a um futuro mais harmônico no mundo globalizado.

Dado o alto grau de imprevisibilidade dos passos concretos de Trump a partir de agora, à frente da mais poderosa e influente nação do planeta, os próximos tempos prometem ser dominados por um amplo espectro de incertezas. Se estas já estavam presentes nos desdobramentos ainda em gestação do processo de separação do Reino Unido da União Europeia, e na incapacidade generalizada, nos países maduros, de encontrar saídas consistentes para a crise econômica que se arrasta há quase uma década, agora ganharam considerável reforço.

Há uma torcida evidente para que, repetindo outras situações históricas, o novo presidente, arrogante e falastrão, acabe obrigado a moderar o discurso agressivo e, mais do que isso, a acomodar suas ações, inclusive e em especial na economia, aos limites impostos pelos conflitos que essas próprias ações podem produzir. Não são mesmo pequenas as possibilidades de que o Trumponomics, como ocorreu com o Reaganomics dos anos 80, depois de um período inicial aparentemente promissor, termine em ineficiência produtiva e na negação prática das promessas de crescimento acelerado.

É possível recolher variados exemplos do que pode não funcionar como gostaria o novo presidente americano. Um aspecto que tem sido lembrado, mas que é de longe o único, é o do real incentivo à imigração ilegal, na contramão da pretendida “limpeza” imigratória anunciada por Trump. Uma política que combine o fechamento de fronteiras com incentivo a obras de infraestrutura tende, de fato, a atrair ondas de mão de obra menos qualificada, nas quais predominam imigrantes.

A adoção de uma política econômica protecionista, com obstáculos a importações e restrições à produção de companhias americanas em mercados externos, também embute uma série de elementos que operam em sentido contrário ao desejado. Para começar, fortíssimos interesses corporativos americanos serão contrariados se tal política for colocada em prática de forma rígida. Não só por isso, mas também pelas ineficiências produtivas a ela inerentes, difícil acreditar que seja bem-sucedida e levada às últimas consequências. A saída de acordos multilaterais, como a da Parceria Transpacífico (TPP) logo no primeiro dia de trabalho na Casa Branca, é a parte mais fácil e menos efetiva da coisa toda.

Mais horizontal e com repercussões importantes no conjunto da economia global são os previsíveis conflitos entre as políticas fiscal e monetária, nos Estados Unidos. Com a promessa de reduzir impostos e elevar gastos em defesa e infraestrutura, o Trumponomics tende a promover uma expansão fiscal, no momento em que a economia se encontra em recuperação, o desemprego registra taxas historicamente baixas e a inflação dá sinais de querer sair de uma prolongada letargia. Forma-se um ambiente propício para uma ação mais contracionista do Federal Reserve (Fed, o banco central americano) do que o já prenunciado — pelo menos três altas de 0,25 ponto porcentual cada ao longo de 2017.

Protecionismo não rima com taxa de câmbio valorizada e é essa a tendência que costuma se impor quando a taxa de juros sofre elevações. Como as políticas de juros e de câmbio operam em sentidos contrários, quanto mais alto os juros, mais valorizada tende a ficar a taxa de câmbio. Assim, se a evolução do dólar seguir a norma, ficará mais forte a cada alta dos juros e tornará menos eficazes as canetadas protecionistas de Trump.

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